A polêmica gerada por proposta da Fifa para atrair investidores privados para a Copa
O presidente da Fifa, Gianni Infantino (à esquerda), e o presidente dos EUA, Donald Trump, na final da Copa do Mundo de 2026. Getty Images via BBC A Uefa, enti...
O presidente da Fifa, Gianni Infantino (à esquerda), e o presidente dos EUA, Donald Trump, na final da Copa do Mundo de 2026. Getty Images via BBC A Uefa, entidade que rege o futebol europeu, e o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, criticaram as propostas da Fifa de buscar investimentos privados em suas competições, incluindo a Copa do Mundo. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp A Fifa, entidade que rege o futebol mundial, afirmou que pretende ampliar para mais de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51,3 bilhões, na cotação atual) o "financiamento para o desenvolvimento do futebol" e convidar investidores externos para participar de um novo projeto. A informação foi publicada inicialmente pelo jornais britânicos Financial Times e The Times, afirmando que os planos poderiam render ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, dezenas de milhões de libras, equivalente a centenas de milhões de reais. Em um longo comunicado que detalha as propostas, a Fifa afirma que "convidará terceiros a fazer investimentos minoritários, sem poder de controle" em uma nova subsidiária, a Fifa Forward Enterprise (FFE), para "consolidar" suas operações comerciais e de eventos. Agora no g1 O plano ainda precisa ser aprovado em votação pelas 211 entidades filiadas à Fifa. Mas, caso receba o aval, a Fifa afirma que a empresa Thrive Eternal deverá liderar o grupo de investidores proposto para a FFE. A Thrive é uma empresa americana de capital de risco fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Fontes da Fifa disseram à BBC Sport que não houve discussões sobre a possibilidade de Infantino, ou qualquer outra pessoa, tornar-se diretor-executivo da FFE. Em seu comunicado, a Fifa afirmou que Infantino e o restante da organização "têm o dever" de controlar o desenvolvimento do projeto. A Fifa não explicou precisamente o que isso significa nem qual será a natureza específica da participação de Infantino. Como parte da proposta, a Fifa afirma que todas as entidades filiadas poderão ter acesso a até US$ 20 milhões (cerca de R$ 102,5 milhões) em um "aporte único de capital" para financiar projetos de desenvolvimento. Infantino afirmou que todos os países deveriam se beneficiar da riqueza gerada pelo futebol. "Alguns setores do futebol transformaram essa popularidade em um valor comercial extraordinário, e celebramos esse sucesso e queremos que ele continue, porque impulsiona todo o esporte", disse Infantino. "Nosso trabalho é garantir que o restante do futebol cresça junto: a Fifa existe para apoiar o desenvolvimento sustentável e inclusivo em todos os cantos do mundo." No entanto, a entidade europeia de futebol, Uefa, divulgou um comunicado em que afirma que as propostas "ultrapassam um limite". Burnham, primeiro-ministro britânico, afirmou que levar a ideia adiante significaria que a Fifa havia "se vendido" e escreveu na rede social X: "Quero dizer isto de forma muito direta. O futebol não pertence a investidores. Ele pertence às pessoas que lotam as arquibancadas e que ficam à beira do campo semana após semana, faça chuva ou faça sol." "A Copa do Mundo não é um produto. É a maior competição do esporte mundial, e nunca pertenceu a ninguém para que pudesse ser vendida. Apresente o acordo como quiser. Depois que você vende uma parte dela, você se vendeu", acrescentou Burnham. "O futebol pertence aos torcedores. Sempre pertenceu e sempre pertencerá." A Federação Inglesa de Futebol afirmou que não tinha conhecimento dos planos da Fifa até agora. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, afirmou que todos os países deveriam se beneficiar da riqueza gerada pelo futebol. Getty Images via BBC 'Nenhum de nós é dono do futebol' A Fifa argumenta que seu plano, com a criação de uma subsidiária dedicada à área comercial, é semelhante ao modelo adotado por entidades que administram outros esportes. Em 2018, a Premiership Rugby anunciou uma parceria com a CVC Capital Partners, empresa de private equity (modalidade de investimento que compra participações em empresas que não estão na Bolsa) e consultoria em investimentos. Mas a Uefa considera que o anúncio feito pela Fifa na terça-feira (28/7) representa um passo além do aceitável e levanta a possibilidade de uma nova expansão das competições organizadas pela Fifa para aumentar a receita, tanto em número de participantes quanto em frequência, o que poderia ameaçar os próprios torneios da Uefa, que geram receitas elevadas. "Isso ultrapassa um limite que as entidades responsáveis pela administração do futebol jamais deveriam cruzar", afirmou a entidade europeia. "A Uefa trata essa questão com extrema seriedade. Todas as associações nacionais de futebol também deveriam fazê-lo. O mesmo vale para todos os envolvidos que se preocupam com o futuro do esporte. E acrescentou: "A essência e a governança do futebol não são ativos para serem negociados, especialmente quando não há nenhuma transparência sobre quem obterá ganhos financeiros. Nenhum de nós é dono do futebol. A Fifa não tem o direito de vendê-lo." A Fifa afirma que manterá o controle da FFE (Fifa Forward Enterprise) "e a autoridade exclusiva sobre a governança do futebol, as competições, o calendário internacional de partidas e todas as decisões regulatórias e esportivas". Kieran Maguire, especialista em finanças do futebol, disse à BBC Sport que as propostas representam "uma oportunidade para a Fifa gerar ainda mais dinheiro" e que há "muita gente interessada no futebol querendo uma fatia desse negócio". Maguire acrescentou que, caso a FFE seja criada, é provável que aumente a pressão pela realização de uma Copa do Mundo com 64 seleções e disputada a cada dois anos, porque a organização "terá de gerar lucro para satisfazer os investidores". O tema deve ser discutido na próxima reunião do Conselho da Fifa, no segundo semestre, e também durante a Copa Intercontinental da Fifa, em dezembro, que contará com o Paris Saint-Germain, campeão da Liga dos Campeões da Europa. A proposta poderá ser submetida à votação dos 211 membros da Fifa durante o Congresso da entidade, no Marrocos, em março. Análise: um impacto comparável ao da Superliga Europeia Além do desconforto que muitos sentirão com a possível participação de investidores de private equity — e de alguém com vínculos estreitos com Trump — no centro dessa iniciativa, há também uma disputa pelo controle do futebol. O objetivo declarado da Fifa de desenvolver o esporte em todo o mundo causa apreensão entre aqueles que atuam mais perto de sua própria realidade. Um alto executivo do futebol inglês disse à BBC Sport, sob condição de anonimato, que o anúncio era a notícia mais relevante desde o projeto da Superliga Europeia, e levantava o mesmo número de preocupações. A questão é que, caso haja uma tentativa de gerar mais receitas por meio das competições da Fifa, isso implicará uma expansão — tanto do número de equipes quanto da frequência da Copa do Mundo e do Mundial de Clubes. Alguns também acreditam que os torneios poderão atingir uma dimensão tão grande que acabarão sendo disputados durante o inverno. Isso aumentaria a pressão sobre o calendário, que já está sobrecarregado no âmbito das competições nacionais, em parte devido à ampliação dos torneios europeus. A realidade básica é que, embora US$ 20 milhões (aproximadamente R$ 102,5 milhões) não sejam uma quantia significativa no futebol inglês, para muitos países ao redor do mundo esse valor é enorme — e a proposta receberá apoio. Ainda não se sabe, no entanto, como as diferentes partes envolvidas — associações, ligas, clubes e jogadores — reagirão ao plano.