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Até 39 candidatos por vaga: por que ficou tão difícil conseguir uma residência médica no Brasil?

Divulgação Neste domingo (13), quase 100 mil médicos e estudantes de Medicina fazem provas que podem definir o próximo passo de suas carreiras. O Exame Naci...

Até 39 candidatos por vaga: por que ficou tão difícil conseguir uma residência médica no Brasil?
Até 39 candidatos por vaga: por que ficou tão difícil conseguir uma residência médica no Brasil? (Foto: Reprodução)

Divulgação Neste domingo (13), quase 100 mil médicos e estudantes de Medicina fazem provas que podem definir o próximo passo de suas carreiras. O Exame Nacional de Residência (Enare), espécie de “Enem da residência”, recebeu 98.036 inscrições e oferece 8.295 vagas, segundo dados do Ministério da Educação (MEC) enviados ao g1. A disputa é ainda maior nas residências do tipo "acesso direto": são aquelas que podem ser iniciadas pelo recém-formado sem uma especialização anterior. São 89.935 inscrições para 6.019 vagas, o equivalente a quase 15 inscrições por vaga. ⚠️RELAÇÃO CANDIDATO VAGA: A concorrência varia bastante conforme o programa. No acesso direto, a maior relação é em Otorrinolaringologia, com 38,94 candidatos por vaga. Na sequência aparecem Medicina Legal e Perícias Médicas (36,67), Medicina Esportiva (36), Dermatologia (32,19) e Neurocirurgia (31,49). Entre os cursos com menor disputa estão Acupuntura (3,33), Medicina de Emergência (3,98), Infectologia (4,33) e Homeopatia (4,50). Local de prova do Enamed 2026 está disponível; veja como consultar Além das vagas do tipo "acesso direto", há outras 1.301 vagas do tipo "pré-requisito" (exige outra especialidade), 807 de "área de atuação" (complemento para já especializados) e 168 de ano adicional (treinamento prático para já especialistas). A seleção ocorre em meio a um desafio crescente na formação médica no Brasil: o país multiplicou cursos e vagas de graduação nas últimas duas décadas na rede privada, mas as oportunidades de residência não avançaram no mesmo ritmo. Entre 2018 e 2024, o número de estudantes de Medicina cresceu cerca de 71%, de 167,7 mil para 287,4 mil. No mesmo período, o total de médicos residentes aumentou aproximadamente 26%, de 37.742 para 47.718. O resultado é um contingente crescente de médicos que termina a faculdade sem uma oportunidade correspondente de ingressar imediatamente na residência e que, na ponta, deixam de prestar um atendimento ainda mais completo aos pacientes. Em 2023, 32.611 médicos concluíram a graduação. No ano seguinte, havia 16.189 vagas ocupadas de primeiro ano (R1). A diferença entre o número de formados e essas vagas chegou a 16.422. Em 2018, era de apenas 3.886. Agora no g1 A Lei do Mais Médicos, de 2013, estabeleceu como meta que o país ofertasse anualmente um número de vagas de residência médica equivalente ao total de médicos formados no ano anterior. A medida deveria ser implantada progressivamente até o fim de 2018, mas a meta não foi cumprida, segundo especialistas ouvidos pelo g1. Em 2024, 40,9% dos médicos brasileiros não tinham título de especialista. A proporção de especialistas no país, de 59,1%, também estava abaixo da média de 62,9% dos 39 países analisados pelo estudo Demografia Médica 2025. A pesquisa foi elaborada pelo departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em cooperação com a Associação Médica Brasileira (AMB), o Ministério da Saúde, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o Ministério da Educação (MEC) e a Fapesp. Graduação cresce muito mais rápido que residência Em 20 anos, portanto, o número de cursos aumentou 239% e o de vagas, 251%. Adobe Stock A diferença entre a expansão da graduação e da residência começou a ser construída ao longo das últimas duas décadas. Em 2004, o Brasil tinha 132 cursos de Medicina, com 13.820 vagas anuais. Em 2024, eram 448 cursos e 48.491 vagas autorizadas. Em 20 anos, portanto, o número de cursos aumentou 239% e o de vagas, 251%. A população brasileira, por outro lado, cresceu aproximadamente 18% no mesmo período, de pouco mais de 180 milhões para 212,6 milhões de habitantes. A expansão das faculdades se acelerou principalmente na última década analisada. De 2004 a 2013, foram acrescentadas 7.692 vagas. Entre 2014 e 2024, foram criadas 27.921 — quase quatro vezes o incremento da década anterior. Das vagas abertas entre 2014 e 2024, 91,5% eram privadas. Diante das escolas já abertas e das vagas autorizadas pelo MEC, o estudo Demografia Médica estima que o Brasil deverá formar, em curto prazo, mais de 42 mil novos médicos por ano. Alerta dos especialistas José Eduardo Lutaif Dolci, diretor científico e próximo presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), alerta que a diferença entre o número de médicos formados e os que conseguem se especializar tende a aumentar. Antônio José Gonçalves, presidente da Associação Paulista de Medicina e professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, acrescenta que a residência é uma etapa fundamental para complementar a formação. “Seis anos de graduação, mesmo nas melhores escolas, não são suficientes para formar um bom médico. A residência médica é fundamental para melhorar a qualidade do médico”, afirma. Governo cria 3 mil bolsas diante do gargalo Em meio ao aumento da diferença entre médicos formados e oportunidades de especialização, o governo federal anunciou em fevereiro deste ano 3 mil novas bolsas de residência médica, dentro do programa Agora Tem Especialistas. Segundo o Ministério da Saúde, com a ampliação, a União passará a financiar mais de 60% das bolsas de residência médica do país. O número ajuda a dimensionar a resposta do poder público diante do tamanho do descompasso. Na comparação entre 32.611 médicos formados em 2023 e 16.189 vagas ocupadas de R1 de acesso direto em 2024, a diferença foi de 16.422. As 3 mil novas bolsas equivalem a cerca de 18% dessa diferença. A comparação não significa, porém, que as novas bolsas eliminem diretamente esse déficit, já que nem todas correspondem necessariamente a vagas de R1 de acesso direto. Dados atualizados enviados pela pasta ao g1 mostram que, até agosto de 2026, 2.872 das 3 mil novas bolsas previstas haviam sido financiadas por meio do Pró-Residência. O edital continuava com adesões abertas, com previsão de alcançar as 3 mil até o fim do ano. As novas vagas são direcionadas a especialidades consideradas prioritárias para o SUS, entre elas oncologia, anestesiologia, cirurgia oncológica, neurologia pediátrica, oftalmologia e radioterapia. Residência também esbarra em jornada e remuneração A quantidade de vagas não é o único obstáculo à especialização. Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que parte dos médicos termina a faculdade com dívidas ou precisa começar a trabalhar imediatamente e, por isso, pode optar por plantões em vez da residência. Os programas têm carga de 60 horas semanais e bolsa mínima de R$ 4.106,09 brutos, segundo o Ministério da Saúde. Dolci considera a remuneração insuficiente diante da jornada e defende medidas para tornar a residência mais atrativa. Diante da dificuldade de ampliar rapidamente as vagas, a AMB também propõe que o governo financie bolsas para programas de especialização mantidos por sociedades médicas. Segundo Dolci, 32 das 54 sociedades de especialidades possuem centros de ensino e treinamento que oferecem formação de especialistas não credenciada pelo MEC e formam mais de 5 mil especialistas por ano. A proposta da entidade é aproveitar centros, professores e estruturas já existentes para ampliar a formação especializada. Mais médicos não significa mais especialistas O crescimento acelerado da graduação já se reflete no número total de profissionais. Mantido o ritmo atual, o Brasil deve chegar a 1,15 milhão de médicos em 2035, com uma densidade de aproximadamente 5,2 profissionais por mil habitantes. Para especialistas, porém, aumentar o número absoluto de médicos não resolve sozinho o problema da assistência se o crescimento não vier acompanhado de qualificação. Dolci chama a atenção para os reflexos na atenção primária. Segundo ele, médicos sem capacitação adequada podem ter menor capacidade de resolver os casos nesse nível de atendimento e, consequentemente, aumentar os encaminhamentos para especialistas. “O médico qualificado que vai para a atenção básica, em tese, deveria estar resolvendo no mínimo 75% dos casos. Mas isso não acontece no Brasil porque esse médico não está qualificado”, afirma. A distribuição dos profissionais também continua desigual. O Sudeste concentra 46,3% dos médicos do país, e 18 das 27 unidades da Federação têm uma razão de médicos por mil habitantes abaixo da média nacional. Segundo o Demografia Médica 2025, as capitais têm 366% mais médicos por mil habitantes que o restante dos estados. Para estimular a interiorização, os especialistas defendem a criação de uma carreira de Estado para médicos, nos moldes das existentes para juízes, promotores e delegados. A proposta busca estimular a permanência dos profissionais em cidades menores e regiões mais distantes, com progressão profissional. Para os entrevistados, isso reforça que a política de formação precisa considerar não apenas quantos profissionais entram no mercado, mas em quais especialidades e regiões eles são necessários. Qualidade da graduação também preocupa A velocidade da expansão dos cursos acrescenta outra questão ao debate: a qualidade da formação dos novos médicos. Os resultados da primeira edição do Enamed mostraram que, dos 351 cursos analisados em 2025, 107 ficaram nas duas faixas mais baixas de avaliação, mais de 30% do total. Foram 24 cursos com conceito 1 e 83 com conceito 2. Gonçalves defende maior fiscalização das exigências de infraestrutura, hospitais e corpo docente das faculdades. Ele e Dolci também são favoráveis à criação de um exame de proficiência para verificar se o recém-formado está apto a exercer a Medicina. O exame teria função diferente do Enamed: enquanto a avaliação aplicada novamente neste domingo mede o desempenho dos estudantes e ajuda a avaliar os cursos, a proposta de proficiência verificaria a capacidade do médico depois da formação. O desafio das políticas públicas, portanto, não termina na abertura de vagas de graduação. Com um número cada vez maior de médicos deixando as faculdades, o país precisa definir quantas oportunidades de especialização oferecer, em quais áreas e regiões e como fazer a residência crescer em ritmo capaz de acompanhar a expansão da formação médica.