Batalha no ar: Pesquisadores flagram pela primeira vez caninana atacando ninhos de gavião e bem-te-vi
Pesquisadores flagram pela primeira vez caninana atacando ninhos de gavião e bem-te-vi Uma batalha inédita na copa das árvores acaba de ser revelada pela ci...
Pesquisadores flagram pela primeira vez caninana atacando ninhos de gavião e bem-te-vi Uma batalha inédita na copa das árvores acaba de ser revelada pela ciência. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram registrar o momento exato em que serpentes do gênero Spilotes — conhecidas popularmente como caninanas ou papa-pinto — atacam e se alimentam de filhotes de duas espécies de aves até então fora da lista de suas presas conhecidas: o gavião-bombachinha (Harpagus diodon) e o neinei, ou bem-te-vi-do-bico-largo (Megarynchus pitangua) (Veja o vídeo acima). 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no WhatsApp O flagrante faz parte de um amplo estudo publicado recentemente na revista científica North-Western Journal of Zoology. A pesquisa, que revisou dados de toda a América Latina, contou com a colaboração do Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Butantan, além de instituições brasileiras, de Honduras e da Colômbia (veja a lista no fim do texto). Para os amantes da natureza, as cenas descritas pelos cientistas parecem roteiro de filme, onde a agilidade do predador colide com o instinto protetor dos pais. Caninana (Spilotes pullatus) juanmacontortrix / iNaturalist Veja mais notícias do Terra da Gente: VÍDEO: Bacurau encara teiú para defender filhotes de predação em Itajaí REGADORES NATURAIS: Estudo revela papel oculto das bromélias para fertilização de florestas SOLUÇÃO: Cerca 'educativa' reduz ataques de onças em 83% e vira aliada no Pantanal Flagra no Rio de Janeiro Um dos registros inéditos ocorreu no Brasil, na Reserva Biológica de Poço das Antas, no estado do Rio de Janeiro. Os pesquisadores observaram uma Spilotes sulphureus (conhecida como papa-pinto-de-papo-amarelo) de 1,80 metro pendurada em um galho a mais de quatro metros de altura. Ataque inédito de cobra caninana a ninho de gavião-bombachinha Divulgação científica: Imagens: J.C. Diaz-Ricaurte et al. / North-Western Journal of Zoology / Acervo Pesquisa Zenodo Em uma demonstração de força e equilíbrio, a serpente manteve dois terços do corpo suspensos no ar, segurando-se apenas pela cauda enrolada firmemente no galho. Foi o suficiente para alcançar o ninho e capturar um filhote de gavião-bombachinha pelo pescoço. O estudo detalha a reação dos pais. O filhote emitia chamados de alarme enquanto os adultos atacavam a cobra vigorosamente. Foram cinco investidas diretas: duas no corpo, uma na cabeça e duas na cauda. "Esses últimos dois ataques fizeram a cobra cair no chão, mas ela não soltou a presa", relatou o artigo científico. Após a queda, sem conseguir salvar a cria, os pais abandonaram o local e a serpente ingeriu o filhote ali mesmo, no solo. Todo o evento durou cerca de dois minutos. A defesa em Honduras O segundo caso inédito, desta vez envolvendo a Spilotes pullatus (a caninana clássica, preta e amarela), foi registrado em Honduras. Uma serpente robusta, com impressionantes 2,8 metros de comprimento, foi vista escalando o tronco de um pinheiro em direção a um ninho de neinei (Megarynchus pitangua). Ataque inédito de cobra caninana a ninho de bem-te-vi-do-bico-largo Divulgação científica: Imagens: J.C. Diaz-Ricaurte et al. / North-Western Journal of Zoology / Acervo Pesquisa Zenodo Ao perceberem a ameaça rastejante, os pais da ave tentaram uma tática diferente. Além de voos curtos ao redor do ninho para alertar outras aves, eles eriçaram as penas — um fenômeno chamado piloereção. O objetivo era parecerem maiores e mais intimidadores do que realmente eram. Apesar do esforço e dos alarmes, a estratégia não funcionou. A caninana invadiu o ninho e predou os dois filhotes que ali estavam, em um processo que durou cerca de 35 minutos. Cardápio revelado Embora cenas como essas sejam difíceis de presenciar, elas ajudam a montar o quebra-cabeça da vida selvagem. O estudo realizou uma revisão inédita sobre a dieta desse gênero de serpentes na região neotropical. Papa-pinto-do-papo-amareno (Spilotes sulphureus) nickvolpe / iNaturalist Ao todo, foram compilados 35 registros de predação desde 1946. Os dados confirmam que a caninana é uma especialista em vertebrados: Aves são o prato principal (representando mais da metade dos registros). Pequenos mamíferos, como roedores e morcegos, vêm em segundo lugar. Curiosamente, quase não há registros de consumo de anfíbios ou répteis, diferentemente de outras cobras, embora a literatura científica mencione casos raros no passado. Por que isso importa? Para a pesquisadora Silvia Regina Travaglia Cardoso, do Museu Biológico do Instituto Butantan e coautora do estudo, compreender esses hábitos é vital para a conservação. "Para preservar esses animais e seus habitats, precisamos saber como eles vivem, o que comem, como interagem com o ambiente. Só assim é possível estabelecer metas e planos eficazes de conservação", afirmou Silvia em material divulgado pelo próprio Instituto. Ela destaca que o comportamento em vida livre é muito diferente daquele observado em cativeiro. Serpentes são ágeis e, como provaram os novos registros, capazes de superar as defesas parentais de aves agressivas. As imagens da pesquisa foram divulgadas em acervo público Zenodo. Crédito: J.C. Diaz-Ricaurte et al. / North-Western Journal of Zoology. A pesquisa contou com integrantes das seguintes instituições: No Brasil: Instituto de Biociências da USP (São Paulo) Instituto Butantan (São Paulo) Zoológico Municipal de Guarulhos (São Paulo) Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) (Campo Grande) No Exterior: Universidad de la Amazonia (Colômbia) Escuela Agrícola Panamericana Zamorano (Honduras) Instituto de Investigación Ornitológica de Honduras (Honduras) Universidad Nacional Autónoma de Honduras (Honduras) VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente