Canetas emagrecedoras e perda de visão: o que se sabe sobre os 13 casos de Noia investigados no Brasil
Anvisa investiga casos de perda de visão associados a canetas emagrecedoras A Anvisa investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica a...
Anvisa investiga casos de perda de visão associados a canetas emagrecedoras A Anvisa investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia) em pacientes que usavam canetas da classe dos agonistas de GLP-1, indicadas para diabetes e obesidade, como revelou o g1. De acordo com um levantamento feito a pedido do g1, as notificações envolvem pacientes que usavam Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro. (Veja abaixo o que dizem as empresas) Os casos ainda são tratados como suspeitos e estão sendo acompanhados pela Anvisa. De acordo com a agência, a presença do remédio e da doença na mesma notificação não comprova que um tenha causado o outro. O que a Noia? ➡️ A Noia é uma lesão no nervo óptico, a estrutura que leva as imagens do olho até o cérebro. Ela ocorre quando os pequenos vasos que irrigam a parte da frente desse nervo entopem, num processo semelhante ao de um infarto. Sem oxigênio e nutrientes, parte das células nervosas morre, e a visão de um dos olhos piora de repente, em geral sem dor. Na maioria dos casos, a perda é definitiva. A doença é rara e aparece com mais frequência em pessoas que já têm os vasos comprometidos. ➡️ É o caso de quem tem diabetes, condição que danifica o endotélio, camada de células que reveste os vasos por dentro, e deixa o nervo mais vulnerável à falta de sangue. "A diabetes danifica o endotélio, que é a camada que reveste os vasos, e deixa o nervo mais vulnerável à falta de sangue. É um quadro raro, mas que a gente pode ver em pacientes com esse quadro", explica o oftalmologista Rubens Belfort Neto, doutor e pós-doutor pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O que se sabe sobre a relação entre a Noia e as canetas? Anvisa anuncia medidas para aumentar fiscalização da importação e manipulação de canetas emagrecedoras Jornal Nacional/ Reprodução As notificações estão no painel de farmacovigilância da Anvisa, que recebe relatos de pacientes, médicos e das próprias farmacêuticas. 🔴 Todos os casos são tidos ainda como suspeitos e são investigados. Desde 2018, o sistema reúne 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica, desses 12 são relacionadas às canetas. ➡️ As que não envolvem as canetas citam imunomoduladores, remédios contra o câncer, outros antidiabéticos e medicamentos de uso oftalmológico. Entre os agonistas de GLP-1, as notificações se distribuem entre: Ozempic: 5 notificações Wegovy: 3 notificações Wegovy FlexTouch: 2 notificações Rybelsus: 2 notificações Mounjaro: 1 notificação No sistema, 12 registros citam a semaglutida, princípio ativo de Ozempic, Wegovy e Rybelsus, e um cita a tirzepatida, do Mounjaro. Segundo a Anvisa, os casos podem se somar entre os medicamentos. Em nota ao g1, a agência ressaltou que a presença do remédio e da doença na mesma notificação não comprova que um tenha causado o outro. Na última semana, pacientes nos Estados Unidos processaram a Novo Nordisk por casos de Noia após o uso de semaglutida. Eles argumentam que o medicamento causou a perda de visão — a empresa nega. Até agora, nenhum estudo provou essa relação. O mais citado, publicado na revista científica JAMA Ophthalmology, analisou mais de 1,6 mil prontuários e observou risco de quatro a sete vezes maior de Noia entre quem recebeu semaglutida, em comparação com usuários de outras medicações. ➡️ Os próprios autores, porém, consideraram a observação limitada para estabelecer causa e efeito, porque parte dos pacientes tinha diabetes, que por si só pode levar à doença. Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o estudo e as análises que se existem até agora mostram um aumento do risco. O que não é o bastante para suspender a medicação, por exemplo. Com o número de casos, a Anvisa determinou em junho de 2025 que a Noia passasse a constar na bula dos medicamentos com semaglutida como reação adversa muito rara. Para especialistas, o número de notificações não configura um sinal de alarme. Milhões de pessoas usam esses medicamentos, dentro e fora do país, enquanto isso o volume de relatos é pequeno diante desse universo de pacientes. Quem faz o tratamento está seguro? Para os especialistas ouvidos pelo g1, sim. ➡️ Quem usa as canetas para tratar obesidade, diabetes ou hipertensão segue tendo mais a ganhar do que a perder. Segundo Belfort Neto, o aumento de risco sugerido pelos estudos é pequeno, enquanto essas doenças são ameaças comprovadas à saúde. O próprio monitoramento existe para proteger o paciente. Relatos de efeitos adversos são registrados e investigados, e os casos só deixam de ser suspeitos quando há evidência de relação com o remédio, algo que as pesquisas feitas até aqui não estabeleceram. A inclusão na bula tem uma função preventiva: quem já teve Noia não deve usar o medicamento. As sociedades médicas também recomendam a suspensão para quem apresenta perda súbita ou recente da visão. Pacientes com diabetes em tratamento devem fazer exames de retina periódicos, já que a doença aumenta a predisposição a lesões nos vasos do olho. O cuidado maior, segundo os especialistas, vale para o uso sem indicação médica, cada vez mais comum desde que as canetas ganharam apelo estético. "Todo remédio tem pequenos riscos e o benefício tem que ser maior do que o risco. Então, se alguém vai tomar esse remédio sem necessidade, só por vaidade, talvez não deva tomar", afirma Belfort Neto. O que dizem as empresas O que diz a Novo Nordisk A semaglutida foi estudada em múltiplos programas de desenvolvimento clínico robustos, com uma exposição total proveniente do uso pós-comercialização de mais de 49 milhões de pacientes/ano. Em uma análise agrupada, publicada de ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo da Novo Nordisk, com liraglutida e semaglutida (com mais de 83.000 pacientes-ano de observação no braço da semaglutida), identificou um número muito baixo de casos de NAION (Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior Não-Arterítica) confirmados por oftalmologistas, e não demonstrou um aumento na incidência de NAION em participantes que receberam semaglutida. As análises estatísticas sugeriram que a ocorrência de casos de NAION foi independente do fato de os pacientes terem recebido semaglutida ou placebo. A semaglutida comprovou uma ampla gama de benefícios além do controle glicêmico e da perda de peso para pessoas com doenças cardiometabólicas. Considerando a totalidade das evidências de ensaios clínicos, relatos pós-comercialização e estudos observacionais, juntamente com a taxa de incidência geralmente baixa de NAION, a Novo Nordisk entende que o perfil de benefício-risco da semaglutida permanece favorável. A segurança do paciente é uma prioridade máxima para a Novo Nordisk, e consideramos todos os relatos de eventos adversos associados aos nossos medicamentos, colaborando estreitamente com autoridades de saúde e órgãos reguladores em todo o mundo. O que diz a Eli Lilly A segurança dos pacientes é a principal prioridade da Lilly. Monitoramos, avaliamos e reportamos ativamente às autoridades regulatórias as informações de segurança relacionadas a todos os nossos medicamentos. Como parte do nosso processo rotineiro de revisão de segurança, mantemos discussões contínuas com as autoridades regulatórias sobre possíveis temas de segurança e continuaremos avaliando os dados, incluindo quaisquer informações relacionadas a questões oftalmológicas. Se alguém apresentar efeitos colaterais ao utilizar um medicamento da Lilly, deve conversar com seu médico ou outro profissional de saúde.