'Cavalo selvagem nove': John Malkovich e Sam Rockwell elevam fórmula melancólica; g1 já viu
Dois homens de gerações diferentes caminham por um cenário bucólico e inusitado enquanto conversam sobre vida, morte e a estranha amizade que os conecta. A...
Dois homens de gerações diferentes caminham por um cenário bucólico e inusitado enquanto conversam sobre vida, morte e a estranha amizade que os conecta. A fórmula adotada pelo cineasta irlandês Martin McDonagh em três de seus cinco filmes poderia ficar cansativa em "Cavalo selvagem nove", mas é salva pelo charme habitual de seus roteiros e por duas das melhores atuações do ano. A obra que estreia nesta quinta-feira (5) nos cinemas brasileiros já é uma das favoritas ao Oscar 2027 – e, mais do que isso, tem tudo para dar ao veterano John Malkovich a primeira estatueta de sua carreira. Ao lado do também incrível Sam Rockwell (que já venceu como ator coadjuvante em "Três anúncios para um crime", uma das exceções ao formato na carreira de McDonagh), o ator de 72 anos é um dos poucos que conseguiriam equilibrar o carisma e a repulsa necessários para o sucesso do filme. Assista ao trailer de 'Cavalo selvagem nove' Em suas mãos, o espião da CIA viciado e politicamente incorreto – participante de inúmeros golpes contra democracias pelo mundo – vira um senhorzinho incorrigível, mas simpático, uma figura digna de amor e empatia. Ele cometeu alguns assassinatos políticos, sim, mas quem entre nós não se identifica com a inevitável e profunda melancolia de refletir sobre sua própria mortalidade em um local paradisíaco? Com Rockwell, Malkovich forma um "casal improvável" à altura de Colin Farrell e Brendan Gleeson, dupla favorita do diretor no ainda superior "Na mira do chefe" (2008) e em "Os banshees de Inisherin" (2022). Com uma ternura sincera, e menos aspereza do que as farpas trocadas por seus antecessores irlandeses, os americanos combinam melhor com o contraste entre a contemplação inerente em toda obra de McDonagh e a energia ensolarada da Ilha de Páscoa, onde a história acontece. John Malkovich e Sam Rockwell em cena de 'Cavalo selvagem nove' Diego Araya Corvalán/Searchlight Pictures Cabeções filosóficos Em seu roteiro, o diretor (e dramaturgo) narra a última missão de dois espiões da CIA, em uma viagem à terra das famosas estátuas de cabeças gigantes, pouco antes do golpe militar – financiado pelos Estados Unidos – no Chile, em 1973. Doente e forçado a encarar seu legado, o mais velho deles irrita a chefia ao falar demais em público. O que inclui a gravação de suas memórias para a publicação de uma autobiografia – um desejo no mínimo condenável na indústria da intriga internacional. Graças à fotografia iluminada de Ben Davis e à montagem ágil de Mikkel E. G. Nielsen, que trabalharam em "Banshees", "Cavalo selvagem nove" se eleva, mesmo que de leve, sobre o antecessor. Steve Buscemi e Sam Rockwell em cena de 'Cavalo selvagem nove' Diego Araya Corvalán/Searchlight Pictures Pode não ser tão profundo, ou até tão transgressor, mas se traduz em uma urgência maior, graças aos diálogos afiados de McDonagh nas bocas de atores do calibre de Malkovich e Steve Buscemi (que também merecia uma indicação como coadjuvante, em um ano menos disputado). Com o longo tempo para tirar um projeto do papel, é improvável que fosse intenção do diretor lidar com um tema tão atual ao escrever a trama – mas, em 2026, é praticamente impossível não sentir os reflexos da intervenção ianque, governamental ou corporativa, em eventos recentes, como na Venezuela ou até no Brasil. Até "Cavalo selvagem nove", a ideia de substituir Farrell e Gleeson como a musa do cineasta parecia bobagem. Agora, a repetição da fórmula até parece valer a pena. Desde que o irlandês continue a testar novas e inesperadas parcerias. Cartela resenha crítica g1 Arte/g1 John Malkovich em cena de 'Cavalo selvagem nove' Diego Araya Corvalán/Searchlight Pictures