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Concentração de votos impede efetividade de 'puxadores de voto' do PSOL e coloca em xeque estratégia eleitoral da esquerda

A federação Psol/Rede ultrapassou o percentual nacional de votos necessário, mas atingiu o mínimo estadual em apenas oito estados. Divulgação / Câmara do...

Concentração de votos impede efetividade de 'puxadores de voto' do PSOL e coloca em xeque estratégia eleitoral da esquerda
Concentração de votos impede efetividade de 'puxadores de voto' do PSOL e coloca em xeque estratégia eleitoral da esquerda (Foto: Reprodução)

A federação Psol/Rede ultrapassou o percentual nacional de votos necessário, mas atingiu o mínimo estadual em apenas oito estados. Divulgação / Câmara dos Deputados Estratégica para partidos, a eleição na Câmara dos Deputados terminou com uma frustração para o PSOL. Apesar de ter "puxadores de voto" importantes, a sigla de esquerda perdeu vagas na disputa para deputado federal e acabou sem acesso a dinheiro público para manter o partido. Nomes como Erika Hilton (SP), Sâmia Bomfim (SP) e Jones Manoel (PE) angariaram uma votação significativa em seus estados. Mas, não conseguiram levar colegas do partido para a Câmara, já que os outros candidatos não tiveram votos suficientes para atingir o patamar mínimo e conseguir se eleger. Com isso, o PSOL é um dos partidos que não alcançou a cláusula de barreira. 🔎A cláusula de barreira limita o acesso de partidos ao Fundo Partidário e à propaganda gratuita na TV e rádio se a sigla não conseguir eleger 13 deputados distribuídos por nove estados ou 2,5% dos votos para a Câmara em nove estados, com um mínimo de 1,5% em cada estado. Sem chegar a esses critérios, o partido perde acesso ao fundo partidário — dinheiro público repassado aos partidos para mantê-los — e ao tempo de rádio e TV. Ou seja, limita a existência e o crescimento do partido. Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato batem recorde na disputa para deputado federal; confira A performance do PSOL contrasta com a do PL. Minas Gerais, por exemplo, a quantidade expressiva de votos de Nikolas Ferreira fez com que o partido conquistasse 21 vagas no estado, levando à Câmara até mesmo candidatos sem votação expressiva. Isso porque, ainda que com uma grande quantidade de votos concentrada em Nikolas, os outros candidatos ainda tiveram votações suficientes para atingir o mínimo necessário no estado. O mesmo não aconteceu no PSOL. Uma das deputadas que concentrou os votos em São Paulo, Sâmia Bomfim (PSOL) afirma que é difícil traçar estratégias para atrair votos que são motivados por opinião mais do que por qualquer outro elemento. "É muito difícil calcular quantos votos um candidato terá quando não é eleição por máquina, território ou aparato", disse a deputada reeleita. Estratégias eleitorais Para o professor de ciência política da UnB Frederico Bertholini, o resultado da Câmara mostra uma melhor organização do Partido Liberal para as eleições proporcionais. Um exemplo desses fenômenos foi o Distrito Federal, em que o deputado do PSOL Fábio Felix foi o candidato mais votado para a Câmara, mas ficou sem colegas de partido eleitos. “Para o político, é um resultado pessoal muito legal, mas é uma vitória parcial que indica uma necessidade de planejamento”, pontua. Em um dos vídeos do deputado distrital, ele pergunta para apoiadores nas ruas quantos votos ele precisa para ser eleito. A resposta do então candidato é “mais de 150 mil”. Ele comenta ainda que algumas pessoas cravaram que ele estava com a vitória certa, mas que nada estava ganho. “Por isso eu não posso abrir mão de nenhum voto”, afirmou. Esse número, no entanto, diz respeito ao número de votos que a legenda precisaria. É o chamado quociente eleitoral. Para atingir o quociente eleitoral, a Federação PSOL/Rede, da qual o deputado faz parte, deveria alcançar 207.382 votos — o que equivale a todos os votos válidos divididos entre as oito vagas. Fábio Felix atingiu sozinho o que todo o partido precisaria atingir em conjunto, mas a falta de distribuição desses votos fez com que ele não conseguisse puxar ninguém. Federação com o PT Uma das alternativas apontadas por especialistas seria a federação do PSOL com partidos aliados, como o PT. A alternativa foi rejeitada em março pelos psolistas com o argumento de manter a independência da sigla. ➡️As federações partidárias unem duas ou mais siglas por, no mínimo, quatro anos. Pelas regras, as legendas passam a atuar como uma só — o que significa que, nos cálculos de distribuição de recursos, os desempenhos são somados – tanto em eleições como no Congresso Nacional. Com menos votos que o PSOL, a Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB) conseguiu emplacar duas candidaturas no Distrito Federal por conta da distribuição mais equilibrada do número de votos. LEIA TAMBÉM Com Lula, candidato ao governo do DF Leandro Grass faz ato em Ceilândia: 'Vamos virar essa eleição' No DF, a federação não faria diferença no número de eleitos. Em São Paulo, por outro lado, ajudaria puxar mais duas candidaturas. Mesmo sem uma diferença expressiva, a federação ajudaria o PSOL a atingir a cláusula de barreira, que estabelece a eleição de deputados em pelo menos nove unidades da federação. A pedido do g1, o professor Frederico Bertholini calculou o cenário das duas unidades da federação: ➡️Cenário no DF: A federação ampliada somaria 476.592 votos. Dessa forma, o quociente partidário elegeria os mesmos dois deputados, Fábio Felix e Agnelo Queiroz. Na distribuição das sobras, ela ganharia uma vaga por média com Reginaldo Veras. ➡️Cenário em São Paulo: A união ajudaria os partidos a conquistarem mais duas cadeiras. O resultado, no entanto, iria desfavorecer uma das candidatas do PSOL. A projeção aponta que Paulo Teixeira e Reis, ambos do PT, entrariam no lugar de Maria Rosas (Republicanos) e Carlos Bezerra Jr. (PSD), respectivamente. Outra troca aconteceria entre candidatos da mesma federação. Rui Falcão (PT) entraria no lugar de Sônia Guajajara (PSOL), mantendo o número de vagas da federação. Judicialização Para tentar retomar o acesso ao fundo partidário, o PSOL foi à Justiça. Uma aposta é conseguir que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) faça retotalização dos votos no Espírito Santo. Assim, o partido teria votos suficientes em nove estados para cumprir a cláusula de barreira. A federação ultrapassou o percentual nacional necessário, mas atingiu o mínimo estadual em apenas oito estados. No Espírito Santo, ficou a 185 votos do patamar calculado sobre o total de votos válidos apurados. O argumento sobre o Espírito Santo é de que houve candidaturas laranjas no estado. O g1 entrou em contato com o partido, mas não teve resposta sobre quais elementos o partido considera indicadores de candidatos que não estavam realmente concorrendo. O espaço segue aberto. Ainda assim, o partido afirma que contesta que não tenha conseguido alcançar a cláusula de barreira. "Vamos lutar para provar na Justiça que algumas dezenas de votos não são justificáveis para retirar os direitos de funcionamento de dois dos principais partidos da política brasileira", diz o PSOL em nota. A nova composição da Câmara dos Deputados e do Senado Estratégias de campanha As estratégias de campanha, centradas em uma figura forte, e os repasses partidários para os candidatos explicam parte da dificuldade do PSOL – e de outros partidos da esquerda, como o PDT, que também não conseguiu ultrapassar a cláusula de barreira. Em Brasília, Fábio Felix recebeu quase R$ 2,3 milhões para a candidatura, mais de 90% desse valor vindos das direções nacional e estadual do PSOL. Já Enfermeira Karine (PSOL), segunda mais votada da coligação, com apenas 4,3 mil votos, recebeu cerca de R$ 340 mil do partido. O diretor de marketing Fabio Eloi destaca que esse não é um caso isolado do partido. “Os partidos concentraram os investimentos nesses supostos puxadores de votos, acreditando que os candidatos menos relevantes atingiriam quantidade de votos suficientes para superar o quociente, e isso não se concretizou”, explica. Já em São Paulo, a recordista de votos do partido, Erika Hilton, criticou a falta de estratégia em entrevista à Globonews. A votação recorde de mais de 1,5 milhão de votos, seguida dos mais de 500 mil para Sâmia Bonfim, garantiria nove cadeiras para a legenda. O partido, no entanto, só conseguiu preencher seis, já que outros candidatos não atingiram a votação mínima. A dificuldade, explica o especialista, aparece principalmente em legendas de esquerda. Segundo Eloi, há uma sensação de mais candidatos na direita com base de votos, ainda que não tão expressivos. Sâmia Bomfim tem uma avaliação similar sobre nomes do PSOL. Para ela, o partido tem novos quadros, mas ainda sem uma base de eleitores firme para participar de forma significativa da distribuição de votos. "Novas lideranças que atuam no partido têm se destacado, inclusive mais que figuras históricas de partidos mais tradicionais. Outras surgirão e ganharão força aos poucos", disse a deputada. A concentração de investimentos em candidaturas fortes ajuda a entender o menor número de cadeiras, mas não é o único fator que contribui para o quadro. Um ponto central, segundo Eloi, é o domínio das redes sociais. "Quando a gente olha para os candidatos puxadores de voto, essas pessoas são muito presentes nas redes sociais, com público muito bem estabelecido e que dominam a linguagem", explica. "Não basta você ter presença nas redes sociais, é preciso estar lá na linguagem que o consumidor dessas plataformas compreende". Para o especialista, o PSOL sofre com a falta de investimentos em candidatos com menos expressão, enquanto o PT passa por uma dificuldade de se comunicar nas redes, parte disso devido ao envelhecimento dos partidários. A regionalidade é outro fenômeno que garante a distribuição dos votos no PL: prefeitos e vereadores são cabos eleitorais que dão visibilidade para os candidatos em duas cidades e territórios. Em 2024, o PL conquistou 16 cidades entre as com mais habitantes no Brasil.