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Desaceleração brusca e 'efeito chicote': como montanha-russa pode provocar lesões neurológicas

Fantástico investiga os acidentes em uma das montanhas-russas mais famosas do Brasil Uma jovem que perdeu os movimentos de parte do corpo após andar em uma mo...

Desaceleração brusca e 'efeito chicote': como montanha-russa pode provocar lesões neurológicas
Desaceleração brusca e 'efeito chicote': como montanha-russa pode provocar lesões neurológicas (Foto: Reprodução)

Fantástico investiga os acidentes em uma das montanhas-russas mais famosas do Brasil Uma jovem que perdeu os movimentos de parte do corpo após andar em uma montanha-russa no Hopi Hari, no interior de São Paulo, teve hemorragia intracraniana e um grande edema cerebral — mesmo sem relato de uma pancada direta na cabeça. O caso, investigado pelo Ministério Público de São Paulo, chama atenção para um mecanismo capaz de provocar lesões neurológicas: os movimentos bruscos de aceleração, desaceleração e rotação sofridos pelo corpo durante o percurso. Segundo o neurologista Renato Anghinah, professor titular de neurologia da Faculdade de Medicina do ABC e livre-docente da Faculdade de Medicina da USP, movimentos desse tipo podem fazer o cérebro se deslocar dentro do crânio e atingir suas paredes internas. Outro risco é o chamado "efeito chicote", em que a cabeça é projetada com força para trás e para frente, podendo provocar lesões na coluna cervical e comprometer os movimentos. Há relatos semelhantes na literatura médica. Estudos apontam casos de dissecções de artérias, AVCs, hematoma subdural e outros problemas neurológicos após passeios em montanhas-russas. Uma revisão de casos envolvendo crianças ressalta, porém, que essas ocorrências são raras e que o risco de AVC em pessoas saudáveis é muito baixo. O neurocirurgião Helder Picarelli acrescenta que o risco maior é de dor cervical (cervicalgia), principalmente por lesão musculo-ligamentar ou exacerbação de uma doença cervical preexistente. Mas também há situações excepcionais, embora raras, com traumatismos intracranianos devido ao mecanismo de aceleração e desaceleração brusca. “O nível mais frequente é na coluna cervical porque esta é a parte mais móvel da coluna, principalmente próximo a junção com a coluna torácica nos níveis mais baixos”, explica. Montezum: montanha-russa do Hopi Hari investigada pelo MP tem 42 metros de altura e percurso de 58 segundos Como o cérebro pode se machucar sem bater a cabeça? Anghinah explica que uma pessoa não precisa necessariamente sofrer uma pancada direta na cabeça para apresentar um problema neurológico. Uma das explicações está no próprio movimento do cérebro. O órgão fica dentro de uma estrutura óssea fechada, protegido pelas meninges e por líquido, mas não permanece completamente imóvel. Diante de uma desaceleração brusca, ele pode continuar em movimento e atingir as paredes internas do crânio. Esse movimento também pode afetar os axônios, estruturas que fazem a conexão entre os neurônios. Segundo Anghinah, eles podem se esticar, se romper ou esgarçar, causando a chamada lesão axonal difusa. O que é o "efeito chicote" na coluna cervical Outro mecanismo citado pelo especialista é o chamado efeito chicote na coluna cervical. Anghinah usa como exemplo uma colisão traseira de automóvel: com o impacto, a cabeça é projetada fortemente para trás e depois para frente. Dependendo da intensidade da força, esse movimento pode lesionar a coluna cervical. E uma lesão nessa região pode comprometer os movimentos porque informações sensitivas e motoras passam pela coluna cervical. O efeito chicote também pode contribuir para a dissecção das artérias que levam sangue ao cérebro. A dissecção ocorre quando há um esgarçamento da parede da artéria. Picarelli acrescenta que, em carros de Fórmula 1, o capacete fica preso no banco justamente para evitar o movimento de chicote. Mesmo assim, ocorrem traumas importantes por causa da desaceleração brusca, como contusões e rupturas vasculares, que podem até levar a morte. Os riscos do futebol americano, de acidentes de carro e de explosões O neurologista explica que mecanismos semelhantes de aceleração e desaceleração podem ocorrer em acidentes automobilísticos, montanhas-russas, explosões e esportes, como o futebol americano, quando um atleta em alta velocidade é freado repentinamente pelo choque com outro jogador, ainda que o impacto não ocorra especificamente na cabeça. Anghinah, que também é representante do American Concurrent Legacy, entidade que luta a favor dos direitos do futebol dos Estados Unidos, destaca que 20% dos jogadores aposentados de futebol americano têm encefalopatia traumática crônica (ETC), por causa de choques entre eles, que freiam o movimento de alta velocidade. A ETC é uma doença degenerativa progressiva do cérebro que pode ocorrer após traumatismo craniano repetitivo ou lesões por explosão. Os atletas de futebol americano atualmente assumem esse risco para praticarem a modalidade, acrescenta o neurologista. Jovem ficou inconsciente após segunda volta na atração O caso investigado pelo Ministério Público ocorreu em abril. Júlia e João Pedro Bossoni saíram de Londrina, no Paraná, para visitar o Hopi Hari, em Vinhedo (SP). Entre as atrações escolhidas estava a Montezum, montanha-russa de madeira inaugurada em 1999, com cerca de 42 metros de altura e que pode atingir até 103 km/h. O casal andou na atração pela primeira vez sem problemas. Horas depois, voltou à Montezum após conseguir um passaporte VIP. Imagens das câmeras do parque mostram os dois sentados em um dos bancos traseiros. Na subida, Júlia aparece consciente e tranquila. Não há registros do restante do percurso. Cerca de dois minutos depois, quando o carrinho retorna à plataforma, ela está desacordada. Segundo João Pedro, Júlia também estava convulsionando. A jovem foi retirada da atração e levada para a Santa Casa de Vinhedo. Por causa da gravidade do quadro, foi encaminhada diretamente para a UTI. Os exames identificaram uma hemorragia intracraniana e um grande edema cerebral. Júlia precisou passar por uma craniectomia descompressiva, procedimento no qual uma porção da calota craniana é retirada para permitir a expansão do cérebro durante o inchaço. Ela permaneceu 57 dias internada e o diagnóstico foi de traumatismo cranioencefálico (TCE). Segundo o laudo médico citado no texto, o traumatismo foi causado por um mecanismo de contragolpe durante o passeio. O neurocirurgião Victor Batistela explicou que um movimento brusco de aceleração, desaceleração e rotação do crânio pode romper vasos sanguíneos cerebrais, provocando hemorragia intracraniana e edema cerebral. De acordo com a família, Júlia não tinha doenças preexistentes. Após o episódio, perdeu completamente os movimentos do lado esquerdo, incluindo braço e perna, e passou a apresentar dificuldade para falar e memórias turvas. Cinco meses depois, continuava em reabilitação e já havia passado por sete cirurgias. Outros casos de lesões após passeio na Montezum O caso de Júlia não é o único relatado no texto envolvendo a Montezum. Em 2018, Nathalia Assenjo Motta contou ter sofrido um "mecanismo de chicote" durante o percurso. Segundo seu relato, ao passar por uma descida, subida e curva, seu pescoço sofreu um movimento brusco e seu corpo "desligou". O deslocamento das vértebras foi grave e exigiu a colocação de 12 pinos e duas hastes na região cervical. Nathalia recuperou os movimentos do corpo três dias depois, mas perdeu a mobilidade do pescoço. O Hopi Hari pagou uma indenização por danos materiais. Outro caso citado ocorreu em 2014. Márcio ficou tetraplégico depois de andar na atração e morreu em 2023 por complicações decorrentes de uma infecção urinária. Segundo o advogado João Erhardt, houve rompimento de duas vértebras, mas o problema neurológico que levou à tetraplegia foi atribuído no laudo ao movimento de chicote. O texto também registra que foram encontrados pelo menos 40 relatos, feitos nos últimos dois anos em uma plataforma de avaliação de consumidores, de pessoas que alegaram ter sofrido lesões na Montezum, incluindo dores no pescoço, problemas no joelho e costelas quebradas. Estudos relatam AVC e dissecção de artérias Casos de problemas neurológicos associados a montanhas-russas também aparecem na literatura médica citada nos textos. Um estudo de 2020, publicado na revista científica Case Reports in Medicine, relatou o caso de uma mulher saudável de 37 anos que procurou atendimento depois de apresentar duas semanas de dor no pescoço e de cabeça, seguidas de tontura e náusea. Antes dos sintomas, ela havia ido diversas vezes a montanhas-russas e também realizado ioga e massagem no pescoço. Exames identificaram dissecção bilateral das artérias vertebrais e múltiplos acidentes vasculares cerebrais isquêmicos no território cerebelar esquerdo. A paciente recebeu anticoagulação, aspirina e atorvastatina, teve alta sem déficits neurológicos e, três meses depois, apresentou resolução completa das dissecções. Outro trabalho, uma revisão japonesa de 2025, analisou relatos publicados entre 1994 e 2024 de AVC e neurotrauma associados a passeios de montanha-russa em crianças de até 15 anos. Os pesquisadores identificaram 24 casos documentados de acidentes cerebrovasculares em parques de diversão com informações detalhadas. Sete envolviam crianças, todas previamente saudáveis. Mais de 70% eram adolescentes e, na maioria dos casos, os sintomas apareceram em até dois dias. Dor de cabeça foi a queixa mais frequente. Entre as complicações descritas estavam dissecções das artérias carótida e vertebral, AVC, hematoma subdural e outras lesões neurológicas, possivelmente relacionadas às forças de aceleração, desaceleração e rotação e aos movimentos bruscos da cabeça e do pescoço. Casos são raros, aponta revisão Apesar da gravidade dos episódios relatados, a revisão ressalta que essas ocorrências são raras e que o risco de AVC é muito baixo em indivíduos saudáveis. O estudo aponta que pessoas com condições que aumentem a predisposição — como traumatismo craniano anterior, alterações vasculares ou problemas cervicais — podem ser mais vulneráveis. Os autores também chamam atenção para a importância do diagnóstico precoce e recomendam atenção a sintomas como dor de cabeça ou dor no pescoço persistentes após o passeio, que podem estar relacionados a complicações raras e potencialmente graves. O que diz o Hopi Hari Jovem perde movimentos após andar em montanha-russa do Hopi Hari; MP investiga Reprodução/TV Globo Procurado pelo Fantástico, o Hopi Hari informou que a Montezum possui certificação internacional emitida pelo grupo TÜV Nord e passa por inspeções anuais. Segundo o parque, a atração também segue as normas nacionais aplicáveis a parques de diversões. A empresa afirmou ainda que há placas e avisos sonoros com recomendações e restrições antes do embarque. Os alertas classificam a atração como radical por causa das forças e dos movimentos envolvidos e contraindicam seu uso por pessoas com problemas na coluna, gestantes e pessoas com determinadas condições clínicas. O parque citou ainda um parecer do Ministério Público de São Paulo, de agosto de 2026, que, segundo o documento, apontou não haver risco coletivo, defeito no projeto ou negligência e destacou os protocolos de prevenção, manutenção e segurança operacional da atração. Sobre Júlia, o Hopi Hari afirmou que ela recebeu pronto atendimento, seguindo os protocolos de segurança, e que a direção acompanhou o tratamento, manteve contato com a família e custeou despesas durante sua permanência em Vinhedo. Também informou ter disponibilizado um seguro à família. Em relação aos casos anteriores de Nathalia e Márcio, a empresa disse que eles ocorreram antes de 2019, durante outra gestão. Sobre as cerca de 40 reclamações registradas em uma plataforma de consumidores, o parque afirmou que elas representam um índice "estatístico irrisório" diante de aproximadamente 1,2 milhão de visitantes que passaram pela Montezum nos últimos dois anos. Desaceleração brusca e 'efeito chicote': como montanha-russa pode provocar lesões neurológicas Fantástico/Adobe Stock MP investiga e família busca perícia O Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação sobre o caso de Júlia e solicitou uma perícia policial na montanha-russa. O processo ainda está em andamento. A família também recorreu à Justiça para exigir uma perícia que esclareça as circunstâncias do episódio. Enquanto o caso é apurado, Júlia segue tentando recuperar os movimentos. A rotina inclui fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia. A família pediu que as imagens da jovem durante a reabilitação fossem preservadas.