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'Farmar Aura': trend viral no mundo digital se materializa nas praças de São Paulo

'Farmar Aura': Trend viral no mundo digital se materializa nas praças de São Paulo As expressões “farmar aura”, “aura beta” e “aura sigma” tomara...

'Farmar Aura': trend viral no mundo digital se materializa nas praças de São Paulo
'Farmar Aura': trend viral no mundo digital se materializa nas praças de São Paulo (Foto: Reprodução)

'Farmar Aura': Trend viral no mundo digital se materializa nas praças de São Paulo As expressões “farmar aura”, “aura beta” e “aura sigma” tomaram conta das redes sociais dos adolescentes e do dia a dia de pessoas que convivem com jovens das gerações Z (nascidos entre 1997 e 2009) e Alpha (nascidos entre 2010 e 2025) . Agora, essa tendência saiu das telas direto para as praças públicas de São Paulo. De forma bem resumida, "farmar aura" significa agir de forma a acumular pontos de estilo, construindo uma imagem de alguém interessante, inspirador ou "cool". É como se a pessoa estivesse constantemente aumentando seu "nível" de admiração perante os outros — em uma tentativa ativa ou não. Entenda o que significam esses termos 👈 🔎 No último sábado (18), o Largo de São Mateus, na Zona Leste da capital, recebeu o primeiro Campeonato de Farmar Aura. Mais de 200 pessoas se reuniram para acompanhar os 32 participantes dispostos a mostrar todas as habilidades e levar o prêmio de R$ 1.000. O estudante Heitor Pereira de Oliveira, de 16 anos, foi o grande campeão do dia e conversou com o g1 sobre a participação no campeonato. Ele explicou que o objetivo desses eventos é reunir os jovens para mostrar as habilidades que eles têm e conseguir chamar a atenção do público, mostrando toda a aura, a presença e o impacto perante as pessoas. Com a apresentação, o participante busca “elevar” a aura, tornando a popularidade dele naquele momento maior que a do adversário. E isso pode ser expresso a partir de qualquer movimento, seja por meio de dança, piruetas, cover, figurino, caretas ou gritos. Fica a critério de cada um escolher qual habilidade acredita que vai superar os outros. As pessoas em volta definem então se a aura do participante foi sigma, ou seja, bem-sucedida aos olhos do público, ou então beta, que é quando a aura ou habilidades do participante não agradam quem está assistindo. Campeonato de farmar aura em São Mateus (SP) Amanda Carrazedo @amandacarrazedo Heitor é capoeirista e foram os movimentos de luta que lhe garantiram o troféu. Ele comenta que ficou sem palavras quando foi anunciado em primeiro lugar. “Me senti feliz, muito feliz, tanto que eu não sei explicar. Quando eu ganhei, eu fiquei sem palavras, eu não estava acreditando ainda”, explica. A mãe do adolescente, Rosemare Pereira Lima de Oliveira, de 44 anos, é professora de capoeira, elogiou o evento e rebateu críticas em relação ao filho. “Tem tanta gente criticando, mas assim, é um jeito que eles têm de se expressar, de mostrar tudo que eles não conseguem expressar no dia a dia. Tanto é que não parece, mas o Heitor é meio tímido.” Ela ressalta ainda que o filho participar do campeonato e gostar desse tipo de conteúdo não afeta a vida nem o cumprimento das responsabilidades dele com a escola e o trabalho. Rosemare diz que algumas atrações podem parecer estranhas, mas não passam de entretenimento saudável entre os jovens. Este não é o primeiro campeonato realizado no estado. Suzano já foi palco de duas edições do evento e no dia 25 de julho será a vez de Sorocaba. Para muitas pessoas, é difícil entender a linguagem e o humor da internet, por isso, vídeos relacionados ao tema foram recebidos com estranheza pelos internautas que chegaram a deixar comentários de ódio e piadas nas publicações. A doutora em psicologia Ticiana Paiva explica que, apesar de o comportamento parecer estranho para os padrões da sociedade, o que é realmente estranho é encará-lo como algo fora do normal, principalmente durante a adolescência. “A adolescência é exatamente a fase em que a identidade ainda está em obra: o jovem testa personagens, mede reações, calibra quem quer ser a partir do espelho que os outros devolvem. 'Farmar aura' é só o nome de agora para uma necessidade que não tem idade: parecer interessante, causar boa impressão, ser visto do jeito que quer ser visto. Muda a embalagem, não o conteúdo.” Ticiana ressalta que toda geração teve seu jeito de dizer "eu pertenço, eu importo, isso aqui é interessante”, seja por meio da roupa certa, da banda certa, da gíria certa ou andar com as pessoas certas. Para ela, "farmar aura" cumpre exatamente essa função, só que dentro de uma cultura moldada por redes sociais e memes, onde tudo fica mais rápido, mais visível e mais mensurável. Choque de gerações Entender as novidades e o comportamento das novas gerações é um grande desafio para quem não nasceu na era digital, por isso, Maria Helena Cabral e Tarcísio Cabral, de 70 anos, decidiram auxiliar pessoas com mais de 60 anos a usarem o celular e explicar novas gírias e avanços tecnológicos e sociais para os mais velhos. Os dois são professores, influenciadores digitais e donos do perfil 60demais, que atualmente possui mais de 590 mil seguidores no Instagram e 57 mil no TikTok. Com a popularidade do termo “farmar aura”, eles foram atrás para entender o que aquilo significava. Initial plugin text Maria Helena explica que quando o público mais velho entende essas expressões têm a oportunidade de se sentirem mais conectados com filhos, netos e familiares, gerando conexão e diálogo. Por isso é importante tentar entender as tendências virais dos mais jovens, por mais “chocante” que possam parecer. Eles explicam que preferem não comparar os costumes dos jovens de agora com os da época deles. Para os professores, cada geração tem o estilo próprio de se expressar e juntos preferem repassar as novidades com uma linguagem simples para gerar compreensão. Sucesso nas redes Ticiana Paiva conta que o sucesso desse tipo de conteúdo acontece porque transforma comportamento social em jogo, usa humor e ironia como moeda, cria um código que separa quem entende de quem não entende e permite sinalizar status e autenticidade em poucos segundos. As plataformas fazem o resto: o algoritmo não recompensa o que é verdadeiro, recompensa o que gera identificação rápida e compartilhamento, e esse tipo de conteúdo é feito sob medida para isso. Mas, até que ponto é normal levar ações do mundo digital para o mundo real? A psicóloga explica que é algo esperado para essa juventude, que já nasceu em um mundo digital. “Para essa geração, a fronteira entre on-line e off-line praticamente não existe. O digital não é um espaço à parte da vida social, é a vida social. É natural que expressões, formas de humor e modos de interação migrem das redes para escola, faculdade e trabalho. Isso é saudável enquanto fica no registro do humor entre amigos. O problema começa quando o jovem passa a viver em função da própria imagem, quando cada gesto precisa ser validado, curtido e aprovado, aí entram em cena ansiedade, comparação constante e uma autoestima que só existe se alimentada de fora.” *Sob supervisão de Alexandre Bazzan