Já ouviu falar em pedra 'mole'? Entenda o que é a rocha que viralizou nas redes
Pedra “mole”? Entenda o que é a rocha que viralizou nas redes Pedra quebra tesoura, tesoura corta papel e papel embrulha pedra. Essas são as regras do cl...
Pedra “mole”? Entenda o que é a rocha que viralizou nas redes Pedra quebra tesoura, tesoura corta papel e papel embrulha pedra. Essas são as regras do clássico jogo de mãos "pedra, papel e tesoura" (ou Jokenpô). Mas e se tivermos uma pedra que mais parece um papelão de tão mole? Como seriam essas regras? Será que ainda valeriam? Brincadeiras à parte, um vídeo que viralizou nas redes sociais — e já passou de 1 milhão de visualizações — chamou atenção justamente por isso: por mostrar uma pedra tão flexível que parece dobrar na mão. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Nas imagens, uma moradora de São Thomé das Letras (MG) segura a rocha que parece dobrar com bastante facilidade (veja no VÍDEO acima). A cena intriga: como uma pedra, que deveria ser rígida, consegue se comportar assim? 🪨 A explicação começa pelo tipo de material. O que aparece no vídeo é um quartzito, uma rocha bastante comum na região. Apesar da aparência “mole”, ela é, na verdade, formada por minerais duros. ❓E como ela consegue dobrar? O segredo está na forma como esses minerais se organizam por dentro da formação rochosa. Letícia segurando a pedra "mole". Reprodução/Instagram 🥪 Pense em um sanduíche bem fininho: Pequenos cristais de quartzo, durinhos, formam o "miolo" da rocha; Entre eles, folhas microscópicas de muscovita — um mineral que se forma em placas ou "folhas" superfinas, transparentes e flexíveis — se alinham todas no mesmo sentido; 🔄 Aí quando a placa é fina o bastante, essas lâminas conseguem deslizar levemente umas sobre as outras, e é esse pequeno movimento interno que dá a sensação de maleabilidade. "Os pequenos cristais equidimensionais de quartzo são entrelaçados por muitas, pequenas e diminutas folhas de muscovita, uma mica, mineral que parece uma folhinha. Essas folhinhas imprimem à rocha a orientação em placas e sua flexibilidade", explicou ao g1 o professor Renato de Moraes, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), especialista em petrologia metamórfica. A rocha do vídeo é, mais especificamente, um muscovita quartzito, segundo Moraes, comum em São Thomé das Letras e em cidades vizinhas, como Carrancas. É também o mesmo material que a região vende em placas, sob o nome popular de "pedra mineira", para revestir paredes, calçadas e bordas de piscina. O professor Gergely Szabó, também do Instituto de Geociências da USP, acrescenta um detalhe: placas grandes e finas o suficiente para mostrar o efeito de maneira tão evidente não são tão comuns assim no meio dos detritos da rocha. Por isso, quando aparecem, viram fenômeno, exatamente como o do vídeo. Quartzito, rocha formada ao longo de milhões de anos e conhecida pela resistência — mas que, em alguns casos, pode dar a impressão de ser mais flexível. Siim Sepp/Wikimedia Commons Uma rocha mais velha que os Alpes Quem aparece no vídeo da rocha é Letícia Lima, diretora criativa que se mudou para a cidade no início deste ano. Ela conta que encontrou a formação durante uma trilha com a namorada na última semana e que, antes disso, achava que os vídeos parecidos que via na internet eram falsos. "Eu achava que era mentira. Aí a gente achou uma no meio do caminho. Eu falei: nossa, filma, porque eu quero mostrar para as pessoas que não é mentira", conta ao g1. No registro, Letícia e sua namorada até levantam a hipótese da formação ser uma "pedra bebê", uma rocha ainda em formação, jovem o suficiente para ser flexível. Depois da repercussão, contudo, ela mesma foi atrás da explicação. "E descobri que, na verdade, essa é uma pedra bem antiga, que já passou por vários processos". 👶Os geólogos confirmam: de bebê, ela não tem nada. Segundo Moraes, o metamorfismo que transformou a pedra mole no que ela é hoje aconteceu no chamado período Neoproterozoico, entre 600 e 630 milhões de anos atrás. ⛰️ Antes disso, o material já existia como areia depositada no fundo de um ambiente sedimentar — possivelmente há cerca de 1 bilhão de anos. Toda a região, lembra Szabó, já foi uma cadeia de montanhas comparável aos Himalaias ou aos Alpes; o que se vê hoje na superfície são os restos dessa cordilheira sendo lentamente desgastados. "É uma rocha muito antiga sendo consumida pelos processos geológicos de superfície no presente", explica o especialista. Com chuva, vento e variação de temperatura, a placa que aparece no vídeo deve, no futuro, se quebrar em pedaços cada vez menores até voltar a ser areia, fechando um ciclo geológico que começou centenas de milhões de anos atrás. Mina abandonada de quartzito em parque natural no Canadá; rocha é amplamente usada na construção por sua resistência. Chris Goulet / Wikimedia Commons LEIA TAMBÉM: Drama de baleia encalhada há semanas na Alemanha mobiliza protestos e levanta dilema sobre resgate; entenda Estrutura geológica gigante no deserto do Saara parece um 'olho' visto do espaço; veja IMAGEM 'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota' Nova espécie de "fungo zumbi" é descoberta no Brasil