Novo remédio contra Alzheimer desacelera a doença, mas não é cura; veja o que a ciência já sabe
Leqembi Reuters O novo medicamento Leqembi, aprovado pela Anvisa para o tratamento da doença de Alzheimer em estágio inicial, atua diretamente para desacelera...
Leqembi Reuters O novo medicamento Leqembi, aprovado pela Anvisa para o tratamento da doença de Alzheimer em estágio inicial, atua diretamente para desacelerar o avanço dos sintomas. Para três especialistas ouvidos pelo g1, da área de farmacologia e neurologia, a chegada do fármaco representa um marco histórico na abordagem terapêutica do Alzheimer, porque, ao contrário dos medicamentos disponíveis até então, ele não se limita a aliviar sintomas, mas atua sobre o mecanismo que leva à progressão da doença. Ao mesmo tempo, os especialistas alertam que o tratamento tem custo elevado e só pode ser usado por pacientes que atendam a critérios específicos, como confirmação da presença de placas beta‑amiloide e acompanhamento médico contínuo. Na prática, ele age contra a substância pegajosa que se acumula no cérebro de pessoas com Alzheimer, chamada beta-amiloide. O acúmulo dessas placas é uma das características definidoras da doença. Os anticorpos antiamiloide têm como objetivo reduzir a carga de amiloide no cérebro, impedindo a formação das placas associadas ao Alzheimer. O tratamento é seguro? A eficácia do medicamento foi demonstrada em um estudo publicado em 2022 na New England Journal of Medicine, uma das revistas científicas mais importantes do mundo. O ensaio clínico de grande escala envolveu 1.795 voluntários com Alzheimer em estágio inicial. As infusões do medicamento foram administradas a cada duas semanas. Após 18 meses de acompanhamento, os pacientes que receberam o medicamento apresentaram redução do declínio cognitivo e funcional, indicando uma progressão mais lenta da doença. “Nós já temos fármacos dessa classe antiamiloide aprovados. Pelo menos um deles está liberado em cerca de 43 países. Agora, com a liberação do Leqembi no Brasil, a expectativa é que esses medicamentos sejam adotados na maioria dos países que têm infraestrutura para esse tipo de tratamento”, explica o pesquisador Eduardo Zimmer, do Hospital Moinhos de Vento apoiado pelo Instituto Serrapilheira e IDOR Ciência Pioneira Anvisa aprova medicamento que pode retardar avanço do Alzheimer; entenda O estudo incluiu apenas pessoas entre 50 e 90 anos com Alzheimer precoce, o que engloba indivíduos com comprometimento cognitivo leve ou demência leve causada pela doença. Para participar, era necessário ter pontuação entre 0,5 e 6 na escala Clinical Dementia Rating – Sum of Boxes (CDR-SB), que caracteriza os estágios iniciais. “Do ponto de vista do paciente, se eu tivesse comprometimento cognitivo leve e um exame positivo para amiloide, eu tomaria o medicamento. Mesmo com potenciais efeitos adversos, eu tomaria, porque é muito provável que a doença progrida para fases mais graves. Ter a opção de remover as placas e desacelerar esse processo faz diferença”, diz o especialista. Apesar disso, o tratamento não é indicado para todos os pacientes em estágio inicial. Ele é indicado para pacientes com comprometimento cognitivo leve que tenham confirmação da presença de placas beta-amiloide no cérebro, seja por exame de imagem, ou por análise do líquor (exame neurológico). Além disso, esses indivíduos precisam passar por testagem genética. Quais são os efeitos colaterais? E os custos? O uso do leqembi está associado a uma classe específica de efeitos adversos conhecida como ARIA (anormalidades relacionadas à imagem do amiloide). Os efeitos colaterais mais comuns são edemas e hemorragias. De acordo com o estudo, o medicamento causou reações relacionadas à infusão em 26,4% dos participantes e alterações em exames de imagem associadas ao amiloide, com edema ou pequenos sangramentos, em 12,6% dos casos. A maioria das reações ocorreu na primeira dose. Outros efeitos adversos que afetaram mais de 5% dos pacientes incluíram: dor de cabeça (11,1%) quedas (10,4%) tontura (5,5%) siderose superficial do sistema nervoso central (5,6%). Segundo o neurologista Helder Picarelli do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), o custo do tratamento é elevado. “Nos Estados Unidos, estima-se um valor entre 25 mil e 30 mil dólares por ano por paciente. Além disso, é necessário investimento em diagnóstico e em profissionais especializados, já que o medicamento exige infusão a cada duas semanas e monitoramento por causa dos efeitos colaterais”. “Estamos apenas no começo do desenvolvimento dessa estratégia. Por isso, ainda é preciso colocar tudo na balança, selecionar muito bem os pacientes e avaliar se vale a pena”, completa Helder. O que o novo medicamento significa para o dia a dia dos pacientes Os estudos clínicos apontam benefícios em pacientes com demência leve. De acordo com Picarelli, os testes utilizaram escalas padronizadas que avaliam memória, orientação, julgamento, resolução de problemas e atividades do dia a dia. “Essas escalas mostraram benefício. Teoricamente, a qualidade de vida tende a melhorar”. Ele ressalta que a percepção mais relevante vem de quem convive com o paciente. “Os familiares e cuidadores são os melhores para perceber se houve ou não piora. Como essas escalas avaliam atividades cotidianas, é provável que esse benefício seja real. Ainda assim, a seleção dos pacientes é fundamental. Normalmente, aqueles com bom estado geral. Pacientes com múltiplas comorbidades têm maior risco”, diz Picarelli. O debate sobre a doença e seus tratamentos pode transformar a vida de inúmeros pacientes. Isso porque, nos últimos anos, poucas opções terapêuticas realmente novas surgiram com potencial de interferir no desenvolvimento e na progressão da doença de Alzheimer. “Discutir o Alzheimer desde cedo é fundamental para a prevenção e o diagnóstico precoce. A popularização do conhecimento ajuda as pessoas a reconhecer sinais da doença e a entender que existem estratégias de cuidado e tratamento, que envolvem pacientes, familiares e cuidadores”, pontua Zimmer. Há perspectiva de uso do medicamento em fases avançadas? O medicamento não é eficaz para estágios avançados. Nessas fases, o amiloide já causou o dano principal, desencadeando uma cascata de neurodegeneração. Eduardo Zimmer destaca, porém, que há estudos em andamento. “Estamos aguardando resultados de ensaios clínicos em fase final que testam esses medicamentos em pessoas ainda neurologicamente saudáveis, mas que já apresentam grande quantidade de placas beta-amiloide no cérebro.” Para Renato Anghinah, neurologista e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), o avanço abre caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos, com potencial de alcançar uma eficácia ainda maior. “A cada degrau, a gente vai avançando, ainda que de forma lenta, mas sempre trazendo mais esperança para o futuro. É um medicamento de custo alto e que ainda não entrega tudo o que se espera, mas já é muito melhor do que o que tínhamos até agora”, destaca. (*Estagiária sob supervisão de Ardilhes Moreira)