Operação no Vidigal contra chefe do tráfico baiano retém 200 turistas no Morro Dois Irmãos
Turistas ficam presos no alto do Vidigal durante operação policial contra chefes do Comando Vermelho Uma operação policial contra chefes do Comando Vermelho...
Turistas ficam presos no alto do Vidigal durante operação policial contra chefes do Comando Vermelho Uma operação policial contra chefes do Comando Vermelho da Bahia afetou a rotina de moradores de uma favela na Zona Sul do Rio de Janeiro. A troca de tiros deixou turistas presos no alto de um dos cartões-postais da cidade. Seria um passeio. O plano de cerca de 200 turistas era ver o sol nascendo no mar, numa das paisagens mais bonitas do Rio. De repente, o alerta. “Aí, rapaziada, não fica na ponta não!” "Estávamos à espera do nascer do sol e do nada os guias começaram a dizer pra gente se sentar, depois começamos a ouvir uns tiros e o helicóptero", disse a turista portuguesa Rita Oliveira. "Um guia subiu pedindo pra gente se manter abaixado que tava tendo operação, e aí foi nesse momento, e a gente começou a perceber que era barulho de tiro.", afirmou a auxiliar industrial Keyla Furtado "Era muito tiro e não sabia da onde tava vindo, se ia pegar a gente, se tava perto, a gente realmente não sabia, não sabia de onde tava vindo, mas era bastante", contou Estefânia Andrade, engenheira civil. Morro Dois Irmãos com turistas retidos durante operação policial na segunda (20) TV Globo/Reprodução Lá embaixo, os bandidos tinham bloqueado uma avenida usando caçambas de lixo em chamas. Um ônibus ficou atravessado na pista. E a rotina dos moradores foi afetada mais uma vez pela violência. A polícia estava em busca de Ednaldo Pereira dos Santos, conhecido como Dada. As investigações mostram que ele é o chefe do tráfico em Caraíva e Trancoso, destinos turísticos no sul da Bahia. Dada se aliou ao Comando Vermelho e se escondeu no Rio de Janeiro, protegido pela facção. Como se fosse um turista, ele também resolveu passear no morro. Os investigadores descobriram que o traficante tinha alugado uma casa no Vidigal para curtir o feriado, apreciando a paisagem. As imagens feitas ontem pela inteligência da polícia mostram vários bandidos fazendo churrasco, com direito a piscina e quartos com vista pro mar. Segundo os investigadores, Dada é esse homem de bermuda vermelha. Quando a polícia chegou, Dada e os comparsas já não estavam mais ali, tinham saído por uma passagem secreta. Não é a primeira vez que o traficante baiano consegue fugir. Ele está solto porque há cerca de um ano e meio. escapou da prisão Na noite de 12 de dezembro de 2024, 16 presos fugiram juntos do Conjunto Penal de Eunápolis, na Bahia. A fuga foi facilitada pela então diretora do presídio, Joneuma Silva Neres. O Ministério Público da Bahia apurou que ela participava de um esquema de corrupção para conceder regalias aos presos. “Antes tinha tudo. Serviço de acarajé, serviço de peixe, crustáceo... tudo que se queria era comprado e esses valores, é claro, eram rateados para quem estava envolvido nesse esquema de corrupção”, explicou João Alves, promotor de Justiça do Ministério Público da Bahia. Joneuma Neres assinou um acordo de delação premiada com o MP da Bahia, em que detalhou não só a fuga dos traficantes, mas todo o esquema de corrupção no presídio de Eunápolis. Ela está em prisão domiciliar e contou no depoimento que foi nomeada para o cargo pelo ex-deputado federal Uldurico Júnior, do MDB da Bahia, que, segundo a ex-diretora, participava do esquema. Joneuma disse que Uldurico cobrou R$ 2 milhões de Dada para facilitar a fuga. O adiantamento de R$ 200 mil em espécie foi entregue por uma pessoa de confiança do traficante a Jonelma — a maior parte dentro de uma caixa de sapato. “Na segunda-feira, dia 4, mais ou menos umas 10 horas da noite. O dinheiro foi à noite, um dia foi à noite... baixei o vidro e peguei a caixa. No outro dia também baixou o vidro, peguei o pacote", disse a delatora. Na delação, Joneuma contou que metade do dinheiro da fuga, R$ 1 milhão, seria de Uldorico — e a outra metade iria para o chefe. Segundo o depoimento, o chefe seria o ex-ministro Geddel Vieira Lima, também do MDB. Pouco antes da fuga, 16 detentos, incluindo “Dada”, foram colocados numa mesma cela. Eles usaram uma furadeira para abrir um buraco no teto. Com a ajuda de um grupo armado, cruzaram o pátio e saíram por um furo na cerca. “O fato de eu ter feito vista grossa pelo barulho da furadeira, ter feito essa vista grossa, todo o resto colaborou... alguém fez a cópia das chaves, a demora da polícia, as pessoas que trabalhavam naquele dia, tudo isso colaborou — além de ele ter montado um plano de fuga, que eu não fiz parte, muito bem elaborado, com apoio logístico muito bom. Deve ter gasto muito dinheiro também pra esse plano dar certo.” Uldorico Júnior foi preso na semana passada. Geddel Vieira Lima não é alvo dessa fase da operação. Enquanto isso, as buscas pelo preso que as autoridades da Bahia deixaram escapar continuam no Rio de Janeiro. Na operação de hoje, a polícia não encontrou o traficante procurado, mas prendeu outras três pessoas. Entre elas, Núbia Santos Oliveira, apontada como uma das operadoras financeiras do Comando Vermelho. O Ministério Público da Bahia afirma que ela é esposa de um dos chefes da facção. Núbia tinha mandados de prisão em aberto por tráfico de drogas e homicídio. O delegado que comandou a operação no Morro do Vidigal disse que, apesar do susto, os turistas no alto do morro não correram perigo. “A operação se deu num ponto específico do Vidigal, que é distante daquele local no Morro Dois Irmãos, onde os turistas estavam. Há uma presença constante de criminosos com fuzis, e a gente teve que deflagrar essa operação para tentar capturar as lideranças, mas tomando todas as cautelas necessárias para não colocar em momento algum aqueles turistas ou a própria população numa situação de risco”, afirmou o delegado. Depois de duas horas, aos poucos, os turistas começaram a descer. Nenhum morador e nenhum visitante ficou ferido na operação de hoje. A defesa de Uldorico Júnior afirmou que ele jamais teve conhecimento de plano de fuga, que não recebeu dinheiro e que está colaborando com a Justiça. Geddel Vieira Lima disse que recebeu com surpresa, perplexidade e indignação o fato de ter seu nome envolvido em conversas com pessoas que, segundo ele, sequer conhece. Geddel afirma que teve apenas contatos institucionais e partidários com Uldurico Júnior e que não há nenhuma mensagem trocada com o ex-deputado que o comprometa. E que jamais teve qualquer participação ou ciência dos fatos citados na reportagem. A Secretaria de Administração Penitenciária da Bahia afirmou que colabora com a investigação. A defesa de Joneuma Silva Neres não nos respondeu. E não conseguimos localizar as defesas de Ednaldo Pereira dos Santos e Núbia Santos Oliveira.