Raízen: pedido de recuperação extrajudicial acende alerta para produtores de cana às vésperas da nova safra
Pedido de recuperação extrajudicial da Raízen preocupa produtores de cana O anúncio do pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, em meio a dívidas ...
Pedido de recuperação extrajudicial da Raízen preocupa produtores de cana O anúncio do pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, em meio a dívidas que somam cerca de R$ 65,1 bilhões, causou temor entre produtores de cana-de-açúcar do Centro-Sul do Brasil. Isso porque a empresa de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis é responsável por processar, em média, mais de 70 milhões de toneladas de cana, o que corresponde a 10% da região como um todo. Metade do montante, ou seja, 35 milhões de toneladas vêm de mais de 1 mil produtores independentes, enquanto o restante do volume é produzido pela própria Raízen. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Os dados foram passados ao g1 pela Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana). José Guilherme Nogueira, CEO da Orplana, destacou que o pedido de recuperação extrajudicial gerou preocupação e acendeu um sinal de alerta. 🔎 A recuperação extrajudicial é um acordo em que a empresa renegocia parte das dívidas diretamente com alguns credores, sem a mediação da Justiça. O objetivo é conseguir mais prazo ou melhores condições de pagamento para reorganizar as finanças e evitar problemas mais graves, como a falência. "O medo imediato é atraso de pagamento, possível renegociação de pagamento, impacto em contrato de fornecimento, redução de moagem, fechamento de unidade. Então, tudo isso gera, sim, uma incerteza no produtor. Mesmo a empresa dizendo que as obrigações com fornecedores não serão afetadas, a cadeia fica, naturalmente, com cautela", disse. Indústria da cana-de-açúcar Reprodução/TV Globo O que pode acontecer Nogueira explica que o receio faz com que produtores repensem contratos com a Raízen. Apesar disso, ele ressalta que nenhuma medida concreta foi tomada desde o anúncio do pedido de recuperação extrajudicial. "O produtor começa a ficar receoso de alongar o contrato, de fazer contratos mais longos com a Raízen. Ele começa a tirar um pouco o pé, fala assim: 'deixa eu ver se eu vou continuar com a Raízen. Deixa eu ver se a Raízen realmente vai ser uma grande parceira para mim." O CEO cita, ainda, a preocupação com a possibilidade de a recuperação extrajudicial virar uma recuperação judicial, o que poderia aconteceu no meio da safra 2026/27, que começa em abril. 🔎 Recuperação judicial é o processo em que uma empresa pede ajuda à Justiça para reorganizar suas dívidas, suspender cobranças por um período e tentar continuar funcionando, evitando a falência. "A gente está acompanhando também se essa recuperação extrajudicial não possa virar uma recuperação judicial. Porque daí essa recuperação judicial aconteceria até no meio da safra. Daí seria um momento muito complicado para os produtores e com uma tensão muito grande. Então, é nesse momento que a gente está vivendo e essa crise levanta essas discussões." José Guilherme Nogueira, CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana) Reprodução Safra 2026/27 Uma projeção divulgada neste mês pela consultoria agrícola Datagro aponta que a safra de cana 2026/27 deve atingir 635 milhões de toneladas no Centro-Sul. O número representaria um aumento em relação à safra atual, que será concluída ao final de março e pode alcançar os 610 milhões de toneladas. Segundo Nogueira, o crescimento está relacionado ao clima, com o retorno das chuvas mais regulares. "Claro que você tem uma recuperação de parte da produtividade que foi afetada pelo clima na safra passada. A gente não vê expansão diária, diária de cana aumentando, mas esse efeito de produtividade é principalmente pelo efeito do clima, ou seja, as chuvas que aconteceram no final e no início do ano, no final do ano passado e no início desse ano." Por outro lado, os produtores viram aumentar o custo de produção, principalmente devido aos conflitos no Oriente Médio, que é de onde vem boa parte dos fertilizantes. "Mas, mesmo que essa safra seja uma safra com um volume de cana maior, o custo de produção para o produtor aumentou 25%, comparado já para essa safra com a do ano passado, e com tendência de mais aumento por causa principalmente dos fertilizantes nitrogenados, a guerra no Irã, diesel. Então, tudo isso impacta muito no custo de produção, diretamente. O diesel e fertilizantes nitrogenados impactam diretamente", pontua o CEO. Outro ponto destacado por Nogueira é o preço do açúcar, que operou em queda nos últimos meses. "O preço do açúcar ainda não está respondendo no mercado internacional, o que deixa os produtores aí receosos de fazer investimentos, de colocar adubo, de fazer qualquer tipo de expansão. Então, a gente percebe os produtores muito retraídos agora nesse sentido." Dívida de R$ 65,1 bilhões leva Raízen à recuperação extrajudicial Recuperação extrajudicial da Raízen A Raízen entrou com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas. O plano já conta com apoio de credores que representam mais de 47% desse valor, percentual suficiente para protocolar o pedido. A medida busca reorganizar as finanças e ampliar prazos ou melhorar as condições de pagamento, sem afetar as operações da empresa. Segundo a companhia, clientes, fornecedores e parceiros continuarão sendo pagos normalmente. Agora, a empresa terá até 90 dias para obter o apoio mínimo necessário para que o plano seja homologado pela Justiça e passe a valer para todos os credores incluídos na negociação. O plano pode incluir aporte de recursos pelos acionistas, conversão de parte das dívidas em ações, alongamento de prazos de pagamento, mudanças na estrutura da companhia e venda de ativos. Ações caíram 70% em 1 ano As ações da Raízen acumulam queda de 70,11% em 12 meses, em meio ao aumento da pressão financeira sobre a companhia. Atualmente, o valor de mercado da Raízen é de cerca de R$ 5,38 bilhões. A reestruturação da controlada pela Cosan ocorre após um período de pressão financeira, com aumento do endividamento e desafios operacionais. Nos últimos anos, a companhia também ampliou investimentos em projetos de transição energética, alguns com retorno mais lento do que o esperado. Usina Santa Elisa, da Raízen, em Sertãozinho (SP) Aurélio Sal/EPTV O que diz a empresa A Raízen afirma que a renegociação envolve apenas parte das dívidas financeiras e não afeta as operações da companhia. Leia a nota na íntegra: "A Raízen informa que protocolou nesta quarta-feira (11) pedido de homologação de um plano de recuperação extrajudicial, voltado à reorganização de parte de suas obrigações financeiras junto a credores da companhia. A proposta foi estruturada em diálogo com esses credores e tem como objetivo estabelecer um ambiente jurídico adequado para a negociação e implementação de ajustes em determinadas obrigações financeiras, no âmbito da estratégia da companhia de otimização de sua estrutura de capital. A empresa ressalta que o escopo da recuperação extrajudicial é estritamente financeiro e não envolve dívidas ou obrigações operacionais. Dessa forma, permanecem integralmente preservadas as relações da Raízen com clientes, fornecedores, revendedores e demais parceiros de negócios, que seguem regidas normalmente pelos respectivos contratos. Todas as operações da companhia continuam sendo conduzidas normalmente, incluindo o atendimento a clientes, a relação com fornecedores e a execução de seus planos de negócios. O plano apresentado prevê prazo de até 90 dias para a obtenção das adesões necessárias à sua homologação, nos termos da legislação aplicável. A Raízen manterá seus acionistas e o mercado informados acerca de quaisquer desdobramentos relevantes relacionados a este tema." Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região