Retatrutida leva metade dos pacientes com diabetes a sair da obesidade; efeitos colaterais crescem com a dose
retatrutida Reprodução Mais da metade dos adultos com diabetes tipo 2 que receberam a dose mais alta da retatrutida deixou de ter obesidade após 80 semanas d...
retatrutida Reprodução Mais da metade dos adultos com diabetes tipo 2 que receberam a dose mais alta da retatrutida deixou de ter obesidade após 80 semanas de tratamento. Até quatro em cada dez participantes chegaram a níveis normais de glicose no sangue. Os resultados completos do TRIUMPH-2 também detalham os efeitos colaterais do remédio. Um em cada três pacientes da dose mais alta teve diarreia, e 7,3% relataram alterações de sensibilidade na pele. O TRIUMPH-2 é um estudo de fase 3 da farmacêutica Eli Lilly, a última etapa de testes antes do pedido de aprovação. Os dados foram apresentados nesta terça-feira (29) no congresso anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), em Milão, e publicados ao mesmo tempo na revista científica The Lancet. O que é a retatrutida A retatrutida é uma injeção semanal da mesma família do Ozempic (semaglutida) e do Mounjaro (tirzepatida). Esses remédios imitam hormônios produzidos pelo intestino que aumentam a saciedade e ajudam a controlar a glicose. A semaglutida age sobre um desses hormônios, e a tirzepatida, sobre dois. A retatrutida é a primeira a agir também sobre o glucagon, hormônio que faz o organismo gastar mais energia. A empresa já havia divulgado o resultado principal do estudo em julho: na dose de 12 mg, a perda média foi de 20,8% do peso, cerca de 22,5 kg. A publicação acrescenta agora os resultados por subgrupo, as metas de controle da glicose, o efeito sobre marcadores de risco cardiovascular e o perfil de segurança da molécula. Retatrutida: remédio para a obesidade que pode substituir a cirurgia bariátrica Perda maior em quem começou mais pesado Os 1.152 participantes começaram o estudo pesando, em média, 106,4 kg, com índice de massa corporal (IMC) de 38,2, o que corresponde à obesidade grau 2. Entre os que tinham IMC igual ou superior a 35, a dose de 12 mg levou a uma redução média de 23,4% do peso, ou 27,5 kg. Ao fim do tratamento, 59,5% de todos os pacientes que tomaram 12 mg estavam abaixo de 30 de IMC, o limite que define a obesidade. A perda de peso foi expressiva em todas as doses: 4 mg: 12,7% do peso, ou 13,5 kg 9 mg: 19,1% do peso, ou 20,6 kg 12 mg: 20,8% do peso, ou 22,5 kg No grupo placebo, que recebeu uma injeção sem o remédio, os participantes perderam 4% do peso. Segundo Clayton Macedo, doutor em endocrinologia e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o resultado ganha relevância por se tratar de pessoas com diabetes tipo 2. Nessa população, a resistência à insulina e o uso de outros medicamentos costumam limitar o efeito dos remédios para obesidade. O TRIUMPH-2, afirma o especialista, mostra que perdas muito grandes também são possíveis nesse grupo. A diferença aparece quando se compara com outro estudo da mesma molécula. No TRIUMPH-1, que avaliou adultos com obesidade ou sobrepeso associados a outras doenças, a dose de 12 mg levou a uma redução média de 28,3%. Glicemia em faixa normal O controle da diabetes melhorou junto com o peso. A hemoglobina glicada, exame que mostra a média de açúcar no sangue nos últimos três meses, caiu cerca de 1,5 ponto percentual em todas as doses. Com as doses mais altas, quase oito em cada dez participantes ficaram abaixo do valor usado para diagnosticar o diabetes, contra um em cada quatro no grupo placebo. Cerca de 40% chegaram a níveis considerados normais. O investigador principal do estudo, Juan P. Frías, do Los Angeles Institute for Metabolic Research, lembra que a maioria das pessoas com diabetes tipo 2 também tem obesidade. Segundo ele, tratar as duas condições ao mesmo tempo sempre foi um desafio, e resultados nesse patamar podem mudar o que se espera de uma única terapia para esses pacientes. Marcadores de risco cardiovascular Além do peso e da glicose, o remédio melhorou exames usados para estimar o risco de doenças do coração. Os números abaixo comparam, em média, os valores ao fim de 80 semanas com os do início do estudo, entre os pacientes que tomaram a dose mais alta: Triglicerídeos, um tipo de gordura no sangue: ficaram 39,5% mais baixos. Colesterol não-HDL, que reúne as frações de colesterol que se acumulam nas artérias: ficou 19,6% mais baixo. Pressão arterial: a máxima caiu 10,8 mmHg, o equivalente a passar de 14 por 9 para cerca de 13 por 9. Proteína C-reativa, que indica inflamação no organismo: ficou 58,3% mais baixa. Cintura: diminuiu 16,9 centímetros. Esses resultados, no entanto, ainda não permitem afirmar que a retatrutida previne infarto, acidente vascular cerebral (AVC) ou doença renal. Segundo Macedo, exames melhores não significam necessariamente menos casos dessas doenças, e só estudos feitos para acompanhar esses eventos podem dar essa resposta. A Lilly conduz pesquisas desse tipo, mas os resultados ainda não foram divulgados. Número menor na publicação científica O artigo da Lancet traz um percentual de perda de peso abaixo do divulgado pela empresa. Os 20,8% vêm da chamada análise de eficácia, que estima o efeito do remédio caso todos os voluntários tivessem seguido o tratamento até o fim, ainda que com ajustes temporários de dose. A revista também publica a análise por regime de tratamento, que inclui os participantes que abandonaram a medicação de vez. Por esse critério, a perda média na dose de 12 mg é de 18,8%, e 47% dos pacientes perderam ao menos um quinto do peso. Para Macedo, esse é o dado mais próximo do efeito de oferecer o tratamento a uma população inteira. Ainda assim, não reproduz exatamente a rotina do consultório, já que um ensaio clínico seleciona os pacientes e os acompanha de perto. Efeitos colaterais crescem com a dose Os efeitos adversos mais comuns foram gastrointestinais, e ficaram mais frequentes à medida que a dose aumentava. Na dose de 12 mg: Diarreia: atingiu 33,6% dos pacientes, contra 13,2% no grupo placebo. Náusea: atingiu 28% dos pacientes, contra 8%. Vômitos: atingiram 15,7% dos pacientes, contra 4,2%. Segundo Macedo, esses sintomas são característicos dos tratamentos baseados em incretinas, os hormônios intestinais sobre os quais o remédio atua, e aparecem sobretudo nas semanas em que a dose é aumentada. No estudo, todos começaram com 2 mg semanais, e a dose subiu a cada quatro semanas até a meta de cada grupo. O endocrinologista ressalta que esses números, isoladamente, não permitem dizer se a retatrutida é mais ou menos tolerável que a semaglutida ou a tirzepatida. Para isso, seria preciso comparar os remédios diretamente, nas mesmas condições. Formigamento e ardência na pele Um efeito menos conhecido também apareceu com mais frequência entre quem usou o remédio. A disestesia é uma alteração da sensibilidade que provoca formigamento, queimação ou desconforto ao toque, sem nenhum estímulo que justifique a sensação. O sintoma ficou mais comum à medida que a dose aumentava: Entre os pacientes que tomaram a dose de 4 mg, 4,5% tiveram disestesia. Entre os que tomaram 9 mg, 5,6% tiveram o sintoma. Entre os que tomaram 12 mg, a dose mais alta, foram 7,3%. No grupo placebo, apenas 0,7% relataram o problema. Alterações desse tipo já haviam surgido em estudos anteriores com a retatrutida, mas a causa ainda não é conhecida. De acordo com Macedo, os dados não permitem atribuí-las à ação da molécula sobre o glucagon, nem classificá-las como neuropatia diabética, a lesão nos nervos comum em quem tem diabetes. Ele considera importante acompanhar a intensidade, a duração e a recorrência dos episódios. As infecções urinárias também foram um pouco mais frequentes na dose mais alta: atingiram 8% dos pacientes, contra 6,6% no placebo. Pressão baixa e abandono do tratamento O artigo registrou ainda episódios de hipotensão, a queda excessiva da pressão arterial. Macedo aponta causas plausíveis que podem atuar ao mesmo tempo: a própria perda de peso, a menor ingestão de comida e de sal, a desidratação provocada por diarreia e vômitos e a necessidade de ajustar remédios para hipertensão. Com os dados disponíveis, um efeito direto da molécula não pode ser descartado. Parte dos participantes interrompeu o tratamento por causa dos efeitos adversos, e a dose intermediária teve mais desistências que a mais alta: 4 mg: 3,8% dos pacientes interromperam o tratamento. 9 mg: 11,6% interromperam. 12 mg: 7,7% interromperam. Placebo: 4,9% interromperam. Segundo o especialista, não há base para concluir que a dose de 9 mg seja menos segura. A diferença pode refletir variação estatística ou características dos participantes de cada grupo, e só uma análise detalhada das causas vai esclarecê-la. Sete mortes registradas ao longo do estudo foram consideradas sem relação com o medicamento. Macedo explica que essa classificação resulta de uma avaliação clínica de cada caso, mas não prova que o risco seja zero. Um número tão pequeno de eventos também não permite medir o efeito do remédio sobre a mortalidade. O que ainda falta saber Um estudo com pouco mais de mil pessoas acompanhadas por menos de dois anos deixa perguntas sem resposta. Ainda não se sabe se a disestesia persiste com o uso prolongado, se a pressão baixa aumenta o risco de quedas e se o peso perdido se mantém depois que o tratamento é interrompido. Eventos raros, que só aparecem em populações maiores, também podem ter escapado, e faltam dados sobre idosos e sobre pacientes que usam muitos medicamentos ao mesmo tempo. Os resultados sobre apneia do sono, avaliados dentro do mesmo estudo, ainda serão divulgados. A Lilly planeja pedir o registro da retatrutida à Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, no primeiro trimestre de 2027. Pedidos em outros países, como o Brasil, devem vir depois. Hoje, a única forma legal de receber a substância é participar de um dos estudos clínicos da fabricante. Mesmo assim, canetas vendidas com esse nome circulam no país. As apreensões de canetas emagrecedoras irregulares feitas pela Receita Federal e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na região de Foz do Iguaçu, entre elas produtos vendidos como retatrutida, passaram de R$ 11 milhões só no primeiro trimestre de 2026. Fora dos estudos, não há controle sobre o que o produto contém, e nem os resultados de eficácia nem o perfil de segurança descritos agora na Lancet valem para essas canetas.