Super El Niño pode estar entre os mais intensos já registrados; veja o que esperar
Cientistas monitoram formação de 'Super El Niño' e alertam para impactos no Brasil Eventos extremos cada vez mais frequentes colocam o clima no centro das at...
Cientistas monitoram formação de 'Super El Niño' e alertam para impactos no Brasil Eventos extremos cada vez mais frequentes colocam o clima no centro das atenções. Cientistas acompanham a formação de um "Super El Niño", que pode se tornar um dos mais intensos já registrados. Para entender como o fenômeno se forma e tentar antecipar seus efeitos, pesquisadores combinam tecnologias de monitoramento com registros preservados pela natureza ao longo de milhares de anos. Hoje, os cientistas conseguem acompanhar a evolução do El Niño com meses de antecedência e entender melhor os mecanismos que alimentam o fenômeno. Em condições normais, correntes frias sobem na costa do Peru e trazem nutrientes para a superfície. Ao mesmo tempo, os ventos alísios empurram a água mais quente para a região da Indonésia. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem. A água quente se desloca para o leste e altera os padrões atmosféricos em diferentes partes do planeta. É esse mecanismo que ajuda a explicar por que um fenômeno que começa no Oceano Pacífico pode provocar efeitos tão distantes dali. Quando o El Niño surpreendeu a ciência O El Niño é conhecido desde o período das grandes navegações. O nome surgiu porque pescadores observavam o aquecimento das águas do Pacífico na costa do Peru próximo ao Natal, em referência ao Menino Jesus. Apesar do conhecimento acumulado, nem sempre foi possível prever a força do fenômeno. Em 1982 e 1983, o mundo foi surpreendido pelo que então era o maior El Niño já registrado. No Nordeste brasileiro, a seca destruiu lavouras. Em uma reportagem exibida na época, um agricultor resumiu o impacto: “Perdi tudo, plantei e perdi.” No Brasil, uma das consequências mais graves ocorreu em Santa Catarina. Centenas de municípios ficaram debaixo d'água, houve dezenas de mortes e grandes prejuízos à infraestrutura. A dimensão daquele episódio levou à criação de uma ampla rede de monitoramento do Oceano Pacífico. Liderados pelo pesquisador Michael McPhaden, cientistas espalharam centenas de boias pelo oceano. Os equipamentos continuam transmitindo, em tempo real, informações sobre os ventos e a temperatura da superfície do mar. "Elas transmitem informações em tempo real, via satélite. São usadas para pesquisa e previsão. Foi um sucesso", diz McPhaden. Cavernas guardam pistas de El Niños do passado Mas a ciência também recorre a registros muito mais antigos para entender o comportamento do clima. Em um trecho da Mata Atlântica, uma expedição percorre centenas de metros pelo interior de uma caverna. Ali, formações rochosas ajudam os pesquisadores a reconstruir a história do clima da região. As estalagmites crescem lentamente à medida que a água passa pela rocha e deixa depósitos de minerais. Camada após camada, elas registram mudanças ocorridas ao longo de milhares de anos. Dentro da caverna, uma série de barragens naturais também ajuda os cientistas a identificar períodos de chuva intensa. A própria água construiu essas estruturas ao longo do tempo, explica um pesquisador da expedição: “À medida que ela vem escorrendo rica nesse sal, no carbonato de cálcio, ela vai precipitando. Então imagina que ela vem escorrendo ali a montante com esse sal, em algum momento ela começa a formar um anelzinho de carbonato de cálcio.” As barragens formam piscinas naturais que acumulam água e lama durante as enchentes. Quando a água baixa, uma fina camada de sedimentos fica depositada nas rochas. A cada novo gotejamento, a estalagmite cresce e cobre as marcas deixadas pelas enchentes anteriores. As camadas mais escuras correspondem aos períodos de inundação extrema. Os pesquisadores coletaram estalagmites que permitem reconstruir a história climática da região. Uma delas guarda cerca de 2.300 anos de registros. Outro estudo, baseado nesse tipo de material, identificou centenas de eventos extremos ao longo de mais de sete mil anos. Um El Niño ainda mais forte pode estar chegando As informações do passado ajudam a entender o comportamento do fenômeno, enquanto os instrumentos atuais permitem acompanhar o que está acontecendo agora. As projeções indicam que o El Niño pode se intensificar ainda mais, com 90% de probabilidade de o evento ser muito forte. O fenômeno ocorre em um planeta já aquecido pelas mudanças climáticas. Segundo McPhaden, este ano pode ser o mais quente já registrado. E, se não for, 2027 certamente será. No Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em Cachoeira Paulista (SP), ampliou a capacidade do supercomputador usado para previsões meteorológicas e pretende expandi-la ainda mais nos próximos anos. Para os pesquisadores, o desafio aumentou porque os padrões climáticos do passado nem sempre servem mais como referência. Os modelos matemáticos precisam ser constantemente atualizados para acompanhar uma realidade em transformação. O pico do fenômeno é esperado para dezembro, mas seus efeitos devem continuar depois disso. “O auge desse fenômeno vai ser nesse período, mas ele deve perdurar com intensidade forte ou muito forte no primeiro semestre de 2027", afirma Gilvan Sampaio, pesquisador do Inpe. Super El Niño pode estar entre os mais intensos já registrados Reprodução/TV Globo Calor, seca e incêndios preocupam no Brasil As projeções indicam alta probabilidade de temperaturas acima da média em grande parte do território brasileiro. Ondas de calor prolongadas preocupam especialmente populações vulneráveis, como idosos, pessoas doentes e moradores de áreas precárias. Na Amazônia, a combinação de seca e calor aumenta o risco de incêndios. Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), destaca, porém, que as queimadas dependem da ação humana: “Uma coisa importante nessa equação e nesse contexto é que o fogo não inicia sozinho na Amazônia. É muito raro a gente ter um fogo que começa sozinho, principalmente no auge da época seca.” Efeitos já aparecem em outros países Os efeitos do fenômeno também são observados em diferentes regiões do planeta. Na Indonésia, a redução das chuvas favorece incêndios florestais. Áreas queimadas já superam as registradas no último El Niño, e houve necessidade de resgatar orangotangos ameaçados de extinção. Na China, enchentes provocaram alagamentos. Na América do Sul, nevascas bloquearam a estrada andina que liga o Cone Sul ao Pacífico, deixando milhares de caminhões retidos por semanas. Além dos impactos locais, há preocupação com a economia global: eventos simultâneos em regiões produtoras de alimentos costumam provocar escassez, alta de preços e prejuízos que alcançam trilhões de dólares. Monitoramento busca antecipar novos deslizamentos A ciência também busca identificar sinais de risco antes que novos desastres aconteçam. O professor Clódis de Oliveira Andrades Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), participou do mapeamento de mais de 17 mil deslizamentos registrados após as chuvas de 2024. Agora, pesquisadores usam drones equipados com sensores capazes de identificar sinais de instabilidade mesmo sob a vegetação. Na propriedade do agricultor Artemim Cruz, um inclinômetro passou a monitorar movimentações do terreno. O equipamento envia alertas por SMS à Defesa Civil e aos bombeiros caso detecte alterações acima dos parâmetros definidos. Artemim afirma que percebeu os sinais antes do deslizamento que destruiu seu parreiral: “A barreira já mostrou antes, já tava rachando aqui, já tava tudo rachando o solo antes.” O agricultor Artemim Cruz usa um inclinômetro para monitorar as movimentações do terreno. Reprodução/TV Globo Hoje, quando chove, ele continua atento: “A gente durante o dia fica caminhando aí pra não ver se o solo tá mexendo, né? Porque não tem o que fazer, tem que ficar atento, né?” Os pesquisadores acreditam que a combinação entre monitoramento, tecnologia e educação pode reduzir riscos e salvar vidas. Segundo Clódis, é preciso ensinar as comunidades a reconhecer os sinais de instabilidade: “Ciência, tecnologia, educação, monitoramento com sensores e informação -- ensinar a comunidade a aprender qual é o sinal que essa terra tá dando, que ela tá se desestabilizando — pra que a própria comunidade consiga agir com mais velocidade quando for necessário.”