Vitória dos democratas no Congresso dos EUA vai colocar fim à Doutrina Donroe?
Vista da cúpula do Capitólio dos Estados Unidos. Kent Nishimura / Reuters Com uma ampla maioria no Congresso dos Estados Unidos, os democratas vão tentar fre...
Vista da cúpula do Capitólio dos Estados Unidos. Kent Nishimura / Reuters Com uma ampla maioria no Congresso dos Estados Unidos, os democratas vão tentar frear a ambiciosa agenda de segurança de Washington na América Latina e no Caribe, que o presidente Donald Trump renomeou como Doutrina Donroe. ACOMPANHE: as últimas notícias sobre as midterms MAPAS mostram resultados das em tempo real E para isso poderiam contar com a ajuda de representantes republicanos em alguns assuntos, como o controle dos ambiciosos planos petroleiros de Trump na Venezuela ou a política migratória. Meses depois de voltar à Casa Branca, o governo Trump resumiu seus objetivos na região em uma nova doutrina de segurança nacional: a luta sem trégua contra o crime organizado, contra a imigração irregular e contra a presença de "países alheios" à região, um eufemismo para se referir basicamente à China. Era o renascimento da Doutrina Monroe, de ingerência "benigna" do século XIX, quando Washington decidiu enfrentar as potências europeias que intervinham como queriam em países que acabavam de nascer. Trump se apropriou do novo nome: Doutrina Donroe. Essa doutrina, no entanto, depende da disponibilidade de dotações orçamentárias e de funcionários nomeados para ser posta em prática. E isso, em parte, passa pelo Congresso. "Ter as duas Câmaras do Congresso, poder para convocar [testemunhas] e supervisão orçamentária porá fim ao menos às partes mais extremas da Doutrina Donroe", explicou à AFP Douglas Farah, presidente da consultoria de segurança IBI. Na terça-feira, o representante Robert Garcia, que chefiará o Comitê de Supervisão da Câmara, fez uma advertência contundente aos republicanos e à família Trump: "Procurem um advogado". "Não acho que tenha acabado" a Doutrina Donroe, explica Rebecca Bill Chávez, presidente do Diálogo Interamericano. "Trump não vai mudar suas prioridades só porque os democratas ganharam o Congresso. Mas enfrentará um escrutínio muito maior", acrescenta. Projetos e demandas No caso da Venezuela, os democratas têm no mínimo dois projetos de lei para limitar os investimentos americanos com dinheiro público, e inclusive para impedir que o governo americano possa intervir nos assuntos do país caribenho. O presidente Trump anunciou, em agosto, um acordo petroleiro "histórico" com Caracas, que permitiria a operadores americanos explorar petróleo cru em jazidas venezuelanas, mediante um complexo esquema que implica uma empresa privada, a North American Blue Energy Partners (Nabep). O Pentágono participaria indiretamente desta exploração petroleira, mediante o controle de 35% da Nabep. O senador democrata Jack Reed enviou rapidamente uma carta pedindo explicações ao governo, e previsivelmente serão abertas audiências de fiscalização nos comitês de Relações Exteriores e Defesa em ambas as câmaras. A democrata Debbie Wasserman Schultz e a republicana María Elvira Salazar, reeleita por uma apertada margem na Flórida, também lideraram iniciativas para prorrogar de alguma forma o estatuto migratório temporário dos venezuelanos que o governo cancelou. A Suprema Corte ratificou, em termos gerais, o direito do governo Trump de cancelar programas migratórios que são temporários. A situação de cerca de 350 mil migrantes haitianos é ainda mais crítica, e os legisladores querem reverter a política migratória de Trump. O caso de Cuba Em relação a Cuba, as diferenças entre a agora minoria republicana e os democratas são muito mais profundas. A ala mais esquerdista dos democratas, com congressistas como Gregory Meeks ou Joaquín Castro, apresentaram em maio uma "resolução de poderes de guerra contra Cuba", que proibiria qualquer iniciativa militar. Trump já invocou a segurança nacional para atacar o Irã sem passar pelo Congresso. O presidente repetiu em público que seus planos são "dar uma passada" pela costa cubana quando a guerra no Irã terminar. Quando o governo Trump lançou os primeiros ataques com mísseis contra supostas narcolanchas no Caribe e no Pacífico, em setembro de 2025, rapidamente cinco congressistas democratas escreveram para pedir explicações ao chefe do Pentágono, Pete Hegseth. O Pentágono entregou informação reservada e longas justificativas legais para estes ataques. Os orçamentos do Estado federal são prerrogativa da Câmara de Representantes. Os democratas poderiam dificultar as demandas de financiamento do Pentágono, como já tentaram fazer com a guerra no Irã. Ao mesmo tempo, países aliados, como a Colômbia, se esforçam para recuperar totalmente o financiamento da luta contra o narcotráfico, e outros, como El Salvador, assinaram acordos de acolhida de imigrantes irregulares, que agora com toda certeza serão minuciosamente examinados pelos democratas.